Vai, malandro: Fred e o “amor à camisa” no futebol

Vai, malandro: Fred e o “amor à camisa” no futebol
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Fred acertou contrato de três anos com o Cruzeiro, onde atuou em 2004 e 2005 (Foto: Reprodução/Fox Sports)

Do outro lado da lagoa: Fred troca o Galo pela Raposa para 2018; acabou o “amor à camisa” no futebol ou ele nunca existiu?

Toda vez que uma negociação polêmica acontece no mundo da bola, a velha discussão do amor à camisa vem à tona. “Não se faz mais jogador como antigamente”, dirá o seu avô, seu tio, seu primo mais velho. Mas será que é verdade? Os atletas viraram mesmo mercenários ou isso é só um pensamento saudosista?

A transferência de Fred do Atlético Mineiro para o Cruzeiro expõe muita coisa sobre o mercado, mas expõe também muito do nosso pensamento em relação ao jogo – e atualmente isso é visível principalmente nas redes sociais. O que a “pulada de cerca” do camisa 9 do Brasil da última Copa do Mundo tem a nos dizer?

Jogador ou troféu?

Quem acompanha com frequência os meus textos aqui pela RISE Esportes sabe que sou torcedor confesso do Fluminense, e que já escrevi muitas matérias sobre o clube. Quando Fred chegou ao tricolor, em 2009, recebi a notícia através de um amigo meu, também torcedor do Flu. A nossa animação era irrefreável, afinal, se tratava de um jogador que havia brilhado na Europa. Parecia ser o grande passo da patrocinadora Unimed após a boa fase vivida no ano anterior, com o vice da Libertadores.

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Fred chegou no Fluminense para ser líder da equipe. Saiu como um dos maiores artilheiros do clube (Foto: Agência Photocâmera)

Fred voltou ao futebol brasileiro no contexto do boom financeiro dos times daqui, evidenciado pelas grandes contratações. Ronaldo no Corinthians foi a mais simbólica delas. Anos depois, nomes de peso como Ronaldinho e Seedorf desembarcaram no Flamengo e no Botafogo, respectivamente. O país sediaria um Mundial em 2014, e cada equipe fez o que pôde para tirar uma casquinha dos holofotes.

Então veio a crise econômica. Nem todas as aquisições trouxeram resultados em campo, mas o endeusamento dos craques continuou. Nesse ano, talvez o maior símbolo disso tenha sido Darío Conca. A recepção calorosa da torcida do Flamengo, a demonstração de poder econômico da diretoria, e por se tratar de um jogador que fez história no rival. Valeu a pena? Dentro de campo, o argentino, lesionado, não contribuiu em nada para o rubro-negro.

É um mau sintoma quando se trata um jogador como ídolo antes mesmo dele entrar em campo. O sofrimento é proporcional à expectativa, e por isso o torcedor precisa aprender a “desapegar”.

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O AeroFla começou como um show, mas acabou virando sinônimo de frustração (Foto: Reprodução / MKT Esportivo)

Afinal, o que é “amor à camisa”?

Imagine duas situações fictícias:

1 – João e Maria (nomes comuns no Brasil, é apenas uma ilustração) são casados há 75 anos. Os dois são do interior, e se uniram em matrimônio através de um acordo entre seus pais, que eram fazendeiros. Caminhoneiro, João teve várias amantes em muitas cidades onde pegou a estrada. Agressivo, não foram raras as vezes em que ele chegou em casa bêbado e bateu em Maria. Apesar de tudo, os dois permanecem juntos até hoje.

2- Enzo e Valentina (dois nomes que estão se tornando comuns por aqui também) namoram há seis meses. É o primeiro relacionamento sério de ambos. Eles são muito apegados, conversam por horas e até já se apresentaram aos pais. Enzo é romântico e dá muitos presentes à Valentina. No entanto, o destino lhes pregou uma peça: Enzo ganhou uma bolsa de estudos em Harvard, e terá que se mudar para os EUA, se distanciando de sua namorada.

Quem amou mais, João ou Enzo? Qual o peso do tempo numa relação, seja ela pessoal ou profissional?

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Passagem de Sócrates pelo Santos não apagou a sua identificação com o Corinthians (Foto: Reprodução/OldFootballPictures)

Mesmo se levarmos em conta a longevidade, os exemplos recentes de “amor à camisa” parecem ser iguais ou até maiores que os de um passado distante: Rogério Ceni, Puyol, Giggs, Maldini, Messi, só para citar nomes desse século. Se quisermos voltar ao segundo milênio, encontraremos lendas como Pepe, Baresi, Bergomi, Nilton Santos e Leandro. Não parece haver uma diferença tão grande entre um e outro período.

Talvez o incômodo maior seja em ver jogadores atuando por clubes rivais. Bem, se Pelé, Valdano e Zico podem ser citados como bons exemplos por só terem atuado em um clube de seus países de origem, a geração atual também viu coisa parecida, com feras como Raúl, Henry e Kaká.

Além do mais, quem pode julgar um ser humano por querer novos ares? Totti ficou 25 anos na Roma, se tornou o maior ídolo do clube, mas também acumulou brigas, estresses e desgaste em alguns episódios. Marcos, tido como “santo” pela torcida do Palmeiras, quase foi negociado com o Corinthians, através de uma “ponte” com o Benfica.

Amor à camisa é honrar o time que você joga. É mostrar raça, dedicação e ter simbiose com a torcida. E isso todos esses citados tiveram, e muito.

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Loco Abreu atuou em inúmeros times. E deixou boas lembranças na maioria deles (Foto: Fernando Soutello)

É inegável que o fluxo de transferências aumentou em relação ao que era há 40 ou 50 anos, mas isso tem a ver muito mais com a consolidação do futebol como um negócio do que com um suposto mau-caratismo dos novos atletas. O surgimento da Lei Pelé e da Lei Bosman foi apenas a consumação dessa tendência.

Em 1893, Willie Groves custou £100 ao Aston Villa, sendo o jogador mais caro da época. Em 2017, Neymar foi vendido ao PSG por £200 milhões. Cada um é fruto do seu tempo.

Amor ou ódio – o que será de Dom Fredón?

O sentimento que o torcedor terá com Fred é subjetivo. O cruzeirense pode achar que foi dinheiro jogado fora, até o camisa 9 ser, quem sabe, artilheiro do Brasileirão ou da Libertadores. O tricolor pode dizer que Fred não é mais ídolo, semelhante ao que os flamenguistas disseram de Andrade em 1989, quando foi para o Vasco. O torcedor atleticano pode desejá-lo uma morte horrível, se esquecendo de que se aparecer para ele um trabalho oferecendo 10% a mais, ele próprio larga o antigo.

O que Fred escreverá em seu futuro com a camisa celeste ainda não se sabe, mas nada apagará os grandes feitos, e até mesmo os vexames, de sua vitoriosa carreira. Suas conquistas, seu jeito mulherengo e seu estilo “centroavante à moda antiga” podem incomodar a muitos, mas são os pilares de seu sucesso.

Fred é o que tem para hoje. É isso ou fantasiar atletas imaculados, que atuam de forma romântica e purista em um passado que nunca chegou a existir.

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Botafoguense histórico, Garrincha atuou pelo Flamengo em 1968 e 1969 (Foto: Reprodução/Globo Esporte)

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Will Bento

Will Bento

O garoto que narra e comenta suas próprias partidas no videogame agora é jornalista. Torcedor do Fluminense, nasci no ano do tetra e me apaixonei por futebol no ano do penta. Gonçalense de criação de coração. Ser campeão é detalhe, o importante é ser feliz.



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