O maior credor do Botafogo

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A quem o Botafogo deve seu tamanho? (Foto: Fred Huber)

O Botafogo precisa ser repensado por todos os ângulos; dirigentes precisam de um plano de recuperação claro; comissão técnica e jogadores não devem se render ao coitadismo; e o torcedor alvinegro deve ter em mente que é o principal patrimônio do clube

Lhes faço, caros leitores, o seguinte questionamento: é o time que deve dar à sua torcida elementos que justifiquem o interesse? Ou os torcedores devem se entregar à paixão das arquibancadas e ir até o fim com o clube?  Bom, isso vai depender da maneira como você enxerga o futebol. E por mais que eu tenha uma posição específica, não posso afirmar com certeza. Talvez nunca possa.

É muito bonita a história de times cujas torcidas se mantiveram fiéis mesmo sem ganhar nada. É romântico até. Mas eu sempre tive dificuldade de entender o “com o Grêmio onde o Grêmio estiver“, parafraseando o hino do tricampeão da América. Eu gosto de preto no branco. E até aturo algumas gradações de cinza, não precisa ser 8 ou 80. Mas no final das contas, essa manifestação de fidelidade à todo custo não é saudável. E há alas da torcida do Botafogo que estão começando a repensar isso. Ou vocês acham coincidência estádios vazios em vários momentos da última década?

A Macaca é um exemplo de amor e resistência. Mas ninguém quer ser a Ponte Preta (Foto: Daniel Vorley/AGIF)

Eu mesmo tive um termômetro disso ao longo do ano. Nos grupos sobre o Botafogo vi discussões acaloradas, entrei em algumas, tive textos que criticavam pontos do trabalho de Jair mal recebidos e outros aplaudidos – como um em que falei que João Paulo era mais importante para nós do que Diego para o Flamengo.

Antes da derrota para o Palmeiras, o tom foi de pedido. Questionei se cobrar mais dos jogadores seria loucura – e eu respondi que, caso fosse, que fizessem uma loucura pela torcida. Não aconteceu.

O Botafogo precisa se repensar, reencontrar a própria identidade como clube. Não vai dar para viver de passado para sempre. Há, de fato, uma reconstrução em andamento – e é agora o momento para a discussão. Chega de romantismo. Como é que vai ser? Aonde vai dar pra chegar? Hoje nós somos reféns do pouco talento que nos rodeia. E ao invés das responsabilidades serem distribuídas, estamos centralizando as influências. Isso é um erro grave. Explicarei a seguir os fatores que estão contribuindo para isso.

A imprensa e o discurso de auto-piedade

Os jogadores estão jogando no limite.

O Botafogo não erra sozinho. O clube, os dirigentes, o técnico e os jogadores compraram o discurso do plantel limitado; do elenco que faz mais do que sua obrigação; de uma torcida que não tem motivo para protestar.

Bom, o Corinthians também era tratado da mesma forma. Hoje eles são campeões brasileiros. E nós?

A questão é que não devemos aceitar este discurso pois ele nos apequena. Sabemos da situação financeira do clube e temos consciência do belo trabalho extracampo realizado pelo presidente Carlos Eduardo Pereira. Mas sabemos também que tínhamos totais condições de vencermos a Copa do Brasil e a Taça Libertadores com o elenco que temos à disposição. E, pelo que o Corinthians mostrou – e os favoritos não mostraram – disputar o Brasileirão de forma mais competitiva não era uma utopia.

Jogadores que acham que estão fazendo favor

Ser atleta não é fácil. Mas aquele papo de que exige profissionalismo 24/7 no futebol brasileiro é difícil de engolir. O time do Botafogo teve queda vertiginosa e espantosa nos últimos jogos. Não é como se o mal futebol no fim da temporada fosse algo novo. Mas rolou um burburinho sobre a queda estar relacionada à falta de pagamento de premiações, à indignação coletiva pela não renovação de contrato dos “parças” e à influência excessiva de determinados jogadores. Parece que o Botafogo se tornou refém de gente que acha que faz mais do que deveria pelo clube. Pois bem, vou lhes dizer umas coisas – mas hipoteticamente, ok, só em caso disso realmente estar acontecendo.

Veja o naipe das lideranças do elenco. Não é liderança técnica… (Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo)

Se trouxermos essa situação para a realidade brasileira – sim, porque jogador de futebol vive numa redoma -, poderemos compará-los aos trabalhadores comuns. Se você, caro leitor, tiver a sorte (ou competência) de estar empregado, mas render abaixo do esperado seja por qualquer motivo (como cansaço físico ou mental oriundo da própria função), deixará de ser cobrado por melhora ou até mesmo descontado em seus rendimentos? Considero que em grande parte a resposta seja não.

Fato é que os jogadores ocupam uma classe privilegiada, principalmente no Brasil, onde boa parte da população tem dificuldades para fazer 3 refeições por dia. Jogadores de clubes da série A recebem 5 ou 6 dígitos mensais – e em grande parte dos casos não entregam rendimento.

Você, trabalhador, pode dar menos do que o seu máximo em seu trabalho? Por quanto tempo poderia continuar rendendo abaixo da expectativa? Você está sempre em seu limite.

Jogar no limite é O MÍNIMO que este time pode fazer. Afinal, mensalmente, suas contas já recheadas de dinheiro recebem o acréscimo de mais alguns milhares de reais. Alguns jornalistas que trabalham até 10 horas por dia, incluindo finais de semana e feriados – e nós da RISE sabemos que isso ocorre -, acabam se esquecendo da própria condição e acreditam neste argumento idiota construído pela própria imprensa.

Comissão técnica

Jair Ventura é bom, não há contestação. Mas perdeu o grupo. E nós sabemos quando, apenas fechamos os olhos – afinal, ainda havia uma outra decisão à vista e não podíamos pensar que o caldo havia entornado.

A eliminação na semifinal da Copa do Brasil causou extremo desgaste da confiança do elenco. Foi uma rachadura. O elenco saiu de campo visivelmente chateado. Os jogadores sabiam que poderiam fazer mais. Por estratégia – e não por falta de peças, como CEP falou na época – o Botafogo passou 180 minutos abdicando de jogar. Num lance fortuito fomos eliminados. Ao final do jogo vocês lembram de Bruno Silva ter dito em entrevista que o time não havia sido covarde. Acontece é que a pergunta do repórter de campo sequer teve essa conotação. Se passou pela cabeça de um, passou pela cabeça dos outros.

O elenco sabia que podia encarar o Flamengo de outra forma – e ganhar o jogo. Confiaram numa estratégia que de certa forma subestimava suas habilidades contra um Flamengo desfigurado e cumpriram suas funções.

Não deu certo. Tudo bem, Jair aprendeu com o erro e o time ainda tinha Libertadores. Dessa vez nada de errado – mas também acabamos eliminados. É a vida.

A rachadura finalmente quebrou.

O compromisso do time durou mais algum tempo. Até que ocorreu a primeira derrota da atual série e os boatos começaram a surgir. Hoje, jogadores como Bruno Silva não entregam em campo o que entregavam. Não jogam pelo técnico, que fica restrito às mesmas alterações para tentar mudar a partida. E isso é perceptível. Falta de confiança mútua.

Dirigentes

Você está assistindo a entrevista coletiva após derrota de seu time e eis que surge a frase:

O torcedor tem a obrigação de apoiar o time. Vai protestar na arquibancada

Não. Definitivamente não.

Um colunista da RISE, o Fillipe, me falou recentemente que gostou muito de uma frase minha. Eu notei um lapso de criatividade e agora quero compartilhar com vocês:

A única obrigação do torcedor é de pagar suas contas no final do mês.

O que isso quer dizer? Bem, vai depender da maneira como encaramos futebol. Há uma grande farsa na “profissionalização dos clubes”. O Palmeiras, assim como o Fluminense foi, é bancado pela patrocinadora. Onde está o profissionalismo nessa dependência?

Bom, apesar disso, há um discurso vigente famoso, o do clube-empresa, da diversificação das receitas e da transformação do futebol em entretenimento.

(en.tre.te.ni.men.to) | sm.

  1. ato ou efeito de entreter(-se), de distrair(-se).
  2. aquilo que distrai, entretém; distração, divertimento.

Entretenimento é divertimento. Pessoalmente, cada vez menos trato o futebol como entretenimento. Mas no meu caso específico, é um caminho natural caso queira seguir trabalhando com isso. Levar para o lado profissional.

Fato é que poucas vezes quanto nesta temporada vi tanta esperança na torcida do Botafogo. E poucas vezes vi tanta frustração também. A classificação à Libertadores – talvez não por nossos próprios méritos – acabará sendo prêmio de consolo. No final das contas, terminaremos a temporada moralmente destroçados. Portanto, não serviu como divertimento. Não estamos satisfeitos.

Então, futebol deve ser tratado apenas como paixão?

Torcedor de verdade é aquele que vai ao estádio.

A maior besteira que alguém poderia falar.

No Brasil, a maior parte dos cidadãos é pobre. Portanto, a maioria das torcidas é composta por torcedores pobres. E isso é muito sério. Ir ao estádio hoje é caro. Já vi torcedores do Botafogo exigindo que seus correligionários fossem ao estádio. Bom, se você acha que deve ir, vá. E não se ache especial por isso. Claro, muitos não fazem porque não querem – o que também não é de nossa conta. Afinal, um pacote de pay-per-view pode ser mais barato do que assistir 4 jogos/mês no Nilton Santos – não é apenas o valor do ingresso que conta – e também dará dinheiro ao clube. E certamente é mais cômodo – além de eliminar o fator perigo. Esse é o futebol-entretenimento.

Querem contratação de peso? Então virem sócios.

Cursando meu último ano de Publicidade e Propaganda, produzindo TCC temático sobre futebol e bebendo da fonte de estudiosos do marketing esportivo, afirmo: para o clube, o torcedor que realmente importa é o sócio-torcedor.

O motivo? A mensalidade. O retorno é mensurável (palavra mágica no mundo dos negócios). Pois é, são aqueles que pagam para torcer que têm a devida atenção dos dirigentes do nosso querido Brasil varonil. E eu te provo – e o exemplo nem precisa ser sobre ST especificamente.

Minha mãe é flamenguista e não consome nada do time. Eu, se quiser presenteá-la, entrarei em uma loja oficial e pagarei por um produto. Neste momento, eu, botafoguense, adquiro mais importância para o Flamengo do que minha mãe.

Entretanto, esse discuso tem uma falha evidente. Se assim fosse, todo sócio seria uma espécie de acionista, com direito à prestação de contas por parte de profissionais como o que proferiu essa frase. E eles teriam que escutar a bronca pianinhos. E não adiantaria bloquear no Twitter.

Torcida: o maior credor do Botafogo

O maior credor do Botafogo não é um banco. Não é nenhum “homem forte” da política. O maior credor do Botafogo não exige pagamento à vista. Não penhora seus bens – e ao mesmo tempo é seu bem mais precioso. Quem empresta mais crédito à instituição Botafogo de Futebol e Regatas é sua torcida. Queremos um plano claro de recuperação, já que os juros e correções (títulos) ainda parecem distantes. Exigimos consideração. Exigimos um mínimo de garantias de que não passaremos mais 20 anos no vermelho.

Afinal, somos alvinegros. Gostamos de preto no branco. E até aturamos algumas gradações de cinza. E como aturamos! São mais de 20 anos em tons de cinza.

A quem o Botafogo deve seu tamanho? Deve aos botafoguenses do passado, os que jogaram aqui, como Heleno, Mané, Nilton – e até àqueles que não eram alvinegros de fato, mas honraram o uniforme. Devem aos torcedores destas épocas, que seguiram o time. E aos de hoje, que seguem o time, mesmo que a estrela brilhe menos.

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Os torcedores são o principal patrimônio do clube, não importa o que digam (Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo)

E os que aí estão – dos jogadores aos dirigentes – nos devem. Devem respeito. Eles, especificamente, não têm nada a ver com o período de seca do clube. Por isso, durante todo o ano passado e este ano, investimos confiança. Eles nos devolveram. Mas agora há algo de errado. Estamos sendo cobrados por todos. Estendemos a mão e querem o braço. Não. Por que essas pessoas estão exigindo de nós? Nós existimos sem eles. O Botafogo não existe sem nós.

A conta está chegando nas pessoas erradas. Essa conta não é nossa. E, mesmo assim, sempre estivemos lá para ajudar a pagar. Agora, exigir mais não dá. O Botafogo precisa mesmo se repensar.

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Eduardo Ramos

Eduardo Ramos

Publicitário vidrado em esporte e praticante de qualquer modalidade (não necessariamente bem). Defende a existência dos Estaduais, mas sem levantar bandeira contra o futebol moderno. Tentou fugir da tarefa de escrever sobre o clube de coração - em vão. Enxerga o jogo por suas diversas nuances - visceral, cultural e mercadológica. Fala de si mesmo na 3ª pessoa.


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  1. Marcus Saióro
    Marcus Saióro 5 dezembro, 2017, 17:01

    De 1968 até 2018 (sim, porque não vamos ganhar nada em 2018), são cinquenta anos de humilhações e destempero. Veja, o Botafogo ganhou nesses 50 anos 1 brasileiro, 1 torneio rio são paulo, 1 conmebol e 5 cariocas. 8 títulos em 50 anos, levando-se em consideração que 5 cariocas e 1 rio são paulo não são nada e recuso-me a creditar o brasileiro da série B. Em 1990 o corinthians ganhou seu primeiro brasileiro. Em 1995 o Botafogo empatou com o corinthians. Hoje o corinthians tem 7 brasileiros, 2 mundiais interclubes, 1 libertadores e 3 copas do brasil (títulos que não tinha antes de 1990) e o botafogo continua com seu 1 brasileiro. Botafogo acabou meu amigo, falta só enterrar, a menos que no velório alguma coisa seja feita, porque do jeito que está não dá.

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