Dossiê Azzurra #1: o adeus de Buffon e da Itália

Dossiê Azzurra #1: o adeus de Buffon e da Itália
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Em dois textos, “Dossiê Azzurra” conta tudo sobre as partidas que eliminaram a Itália nas Eliminatórias UEFA 2018, explicando os bastidores, atuais e históricos, que levaram a Azzurra a ficar fora da disputa de um Mundial depois de quase 60 anos.


A primeira parte do adeus italiano: o jogo que rendeu a eliminação em Milão, apesar da bonita festa da torcida italiana durante os 90 minutos

Dentro de um estádio lotado, a Itália não alterou sua forma de jogar. A torcida fazia sua parte. Cantava, pressionava, tentava mudar a cara do jogo. Ventura manteve o 3-5-2 usado no primeiro jogo, com algumas alterações. Jorginho e Florenzi entraram no meio, nos lugares do suspenso Verrati, e De Rossi. Já Gabbiadini ganhou vaga no ataque, no lugar de Belotti.

Os 90 minutos de apreensão e sofrimento

No primeiro tempo, a Suécia até pressionou a saída de bola da Azzurra no campo de ataque, neutralizando as ações. A Squadra, por sua vez, tentava sair com Candreva pelo lado direito, mas com pouca efetividade, e em outras jogadas, forçava as bolas em ligação direta para o artilheiro do Calcio, Ciro Immobile.

Jorginho, a novidade na escalação, fez seu primeiro jogo oficial pela seleção. No lugar de De Rossi, o meio perdeu um pouco na marcação, mas ganhou bastante na criação. De Rossi, inclusive, viralizou logo após a eliminação italiana com seu vídeo discutindo com Gian Piero Ventura. Nele, o técnico chama o volante para o jogo, que na hora retruca, dizendo que o time não precisa empatar e sim, vencer, apontando para Insigne, que também figurava no banco de reservas.

Alguns lances de perigo e outros de polêmica, como pênaltis não marcados, esquentaram demais os ânimos dentro e fora de campo. A torcida, que apoiou do início ao fim, martelava o árbitro a cada lance mais duvidoso a favor da Squadra. O espanhol Antonio Mateu, que até demonstrou certo potencial como árbitro do quadro da FIFA, administrou bem o duelo, mesmo com alguns lances questionáveis aparecendo.

Do lado sueco, a pressão não se converteu em nada interessante e o time acabou recuando. O mais triste aconteceu no momento em que o herói da classificação se estendeu no gramado. Adam Johansson, autor do gol no jogo de ida, rompeu os ligamentos do joelho e provavelmente não jogará o Mundial por sua seleção. Pareceu um baque para os Blagult. 

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A Suécia foi inteligente e soube jogar com as suas limitações para levar a vaga (Foto: Reprodução/The18)

Com a partida caminhando no mesmo ritmo desde o princípio, a Itália basicamente pressionava tentando furar o bloqueio amarelo. Do lado amarelo, por sua vez, o melhor estilo “Park the Bus”: estacionados atrás do meio-campo, dificultando cada vez mais os donos da casa para que ficassem sem saída, insistindo no chuveirinho para a área.

Sem qualquer brilho técnico, a Itália se baseou novamente naquilo que mais fez durante toda a competição: a raça.

Gana x qualidade: a balança pesou para a classificação

Os azuis até criaram boas jogadas, algo raro. Ótimas chances que poderiam ter aberto o placar no final da primeira etapa, quando foi melhor.

Em dado momento, os suecos simplesmente pararam. E partida, nivelada por baixo, dava em nada além de chuveirinho de um lado, e corte do outro. Granqvist, capitão e xerife nórdico, se consagrou. Em cada corte, uma vibração. O tempo ia passando e a vaga se tornava cada vez mais palpável.

Aos poucos, o jogo dava as caras do que seria: ataque contra defesa. A Itália demonstrava nenhuma criatividade e 100% de vontade. Nem as entradas de El Sharaawy e Belotti, nos lugares de Darmian e Gabbiadini, esboçaram alguma reação qualitativa do time da casa.

Chiellini, assim como no primeiro tempo, percebeu a necessidade do time na criação e chamou a responsabilidade. Chegava ao ataque até pra finalizar, fazia jogadas como lateral e conseguia lançamentos para a bagunça, mas nada adiantava. As jogadas eram todas óbvias e o alto time sueco só se consagrava, se segurando como podiam.

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O camisa 3 chamou a responsabilidade em várias ocasiões dentro do jogo (Foto: Reprodução/Tribuna Expresso)

O jogo só aumentava em tensão. Os nórdicos já nem ocupavam o círculo central mais, era só defesa.

E o fim, trágico como se desenhou, chegou.

De quem é a culpa?

A desclassificação não foi nesse jogo, muito menos na repescagem. Mais uma vez o ataque sofreu. E com eles, todo o povo italiano, com o gosto amargo de ficar fora de uma Copa, fato que não acontecia desde 1958.

Foram 23 chutes. Apenas 6 na meta. No total, 75% de posse de bola e nenhum gol no jogo. A tetracampeã Itália será a única seleção com título mundial a não estar na Rússia.

E o desespero para achar um culpado é normal. Com tamanha frustração, um time como a Azzurra pode entender o acontecido como uma humilhação. Mas eu repito a pergunta: de quem é a culpa?

Muitos apontam Gian Piero Ventura como o grande culpado pela não-classificação para a Copa. Será mesmo ele o culpado? Sim, ele tem sua parcela de culpa. Mas ele também não é o principal culpado. Acima dele, o maior culpado é quem o colocou lá. Ventura recebeu o emprego por causa de quem ele conhecia e não por seu talento. Sua nomeação é um exemplo perfeito do poder exercido pelo antigo estabelecimento italiano.

Dizem que o futebol geralmente reflete a sociedade e este é um belo exemplo. O presidente da FIGC que contratou Ventura, Carlo Tavecchio, é o clássico caso do retrógrado que tem voz de comando e bom cargo na Itália. Ele ainda foi responsável por declarações racistas ao meio-campista camaronês Joseph Minala, no campeonato nacional.

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Ventura tem sua parcela de culpa, mas está longe de ser o prinicipal responsável pelo fracasso (Foto: Reprodução/Público Portugal)

E ai surge a pergunta que não quer calar: como ele está no comando da federação? Mas acredite: o buraco é ainda mais fundo. Em vez do chefão racista ser banido de forma instantânea na concorrência para presidente da FIGC em 2014, os responsáveis pelo Calcio protegeram sua escolha antes de lhe dar o cargo mais poderoso no futebol italiano.

Adriano Galliani, CEO do Milan na época e vice-presidente da Serie A, e Silvio Berlusconi, ainda protegeram Tavecchio, descrevendo os comentários racistas como “uma piada infeliz”.

A Itália precisa de renovação política. Em todos os cargos de grande poder, na sua liga nacional e em vários outros aspectos. Todos esperamos o fim dessa supremacia nos cargos federativos da Itália, uma hierarquia velha e suja, que só afunda ainda mais o grande futebol lá da bota.

O adeus de um Deus

Talvez tão triste quanto a eliminação italiana seja a situação de Gigi.

No meio de toda essa confusão e lamentação do povo italiano, tivemos mais um fato triste: Buffon fez sua última partida com a camisa tetracampeã. O goleiro seria o único jogador a disputar 6 mundiais seguidos, mas parou na Suécia. O lendário goleiro, que pra muitos, é o maior da história, com certeza gostaria de ter encerrado sua grande história na Itália de outra maneira.

Mas nada vai apagar o que ele fez pela Azzurra e pelo futebol. Nenhum título, conquista coletiva ou individual, mudará o que Buffon foi. Ele é e sempre será um ícone para Itália e para o mundo da bola.

Nos despedimos junto com a Copa e com todo o povo italiano.

Adeus, Gigi.

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Fillipe Matheus

Fillipe Matheus

Carioca, apaixonado por esportes, sendo o primeiro o futebol. Durante minha vida, vieram também outras paixões. O jornalismo era sonho de criança e hoje me vejo próximo de uma realidade que o inclua. Bom contador de histórias – e bom ouvinte também. Ah, sou contra escanteio curto.



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