UFC Gdansk: audácia e displicência

UFC Gdansk: audácia e displicência
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Darren Till venceu o consagrado “Cowboy” sem problemas no main event do UFC Gdansk, e é mais um talento na incrível divisão dos meio-médios do UFC. (Foto: divulgação/UFC)

A noite de lutas do UFC Gdansk teve um jovem audacioso batendo o veterano Donald Cerrone, a talentosa Karolina Kowalkiewicz vencendo displicentemente uma oponente muito inferior, e muitas outras lutas entre oponentes de menor destaque (e talento); confira a análise da RISE Esportes de tudo o que rolou na Polônia

O line-up do UFC Gdansk foi um tanto desprovido de talentos. A estratégia do ultimate de “lotar” os eventos de pay-per-view de grandes nomes – obviamente – se reflete nos outros eventos. Para o UFC Gdansk – que não foi de pay-per-view – não foi diferente, e o Ultimate apostou em atletas oriundos do país para compensar a ausência de estrelas. Sobrou para Donald Cerrone e Karolina Kowalkiewcz salvarem a noite, esportivamente falando.

O “Cowboy” só não contava com o talento de Darren Till, o que tornou a noite muito mais interessante. Cerrone saiu da talentosa categoria dos leves para a agora mais talentosa ainda divisão dos meio-médios, e isso lhe custou mais outra derrota. Já para Karolina, foi lhe dada uma oponente qualquer, Jodie Esquibel, muito provavelmente apenas para que a excelente polonesa estivesse no card. Ficou fácil para Kowalkiewicz, que lutou displicentemente para vencer por decisão unânime.

Confira a análise da RISE Esportes para o UFC Gdansk:

Darren Till, jovem e audacioso

Donald “Cowboy” Cerrone é um daqueles lutadores dos quais nunca vale à pena perder uma de suas lutas. Dono de várias vitórias entre os leves do UFC, de algumas em sua nova categoria de peso e de muitos bônus de performance, nocaute e finalização da noite, o “Cowboy” costuma dar show. Sábado, no entanto, foi a vez de seu oponente realizar o papel de showman, na luta principal da noite.

Havia bastante expectativa para aqueles que já conheciam o jovem britânico Darren Till, que possuía 15 vitórias em seu cartel, 1 empate e nenhuma derrota. Era a primeira vez em que o jovem atleta seria testado, e contra um oponente muito bem estabelecido e reconhecido. Mas Till nem tomou conhecimento de Cerrone e fez sua vitória sobre o veterano parecer fácil.

Darren fazia o “V de vitória” antes do combate, já em antecipação ao resultado, enquanto Cerrone sorria tranquilamente, mal sabendo da dificuldade que se apresentaria à sua frente. (Foto: divulgação/UFC)

A luta

Ambos estavam muito bem fisicamente para o embate, altos, musculosos, parecia até um embate da categoria acima. Esse fato se refletiu na potência dos golpes, cada soco e chute dos 2 lutadores causava um dano imenso, e ficou claro que a luta não passaria dos primeiros rounds.

Donald não estava na melhor de suas noites. A verdade é que o Cowboy ficou um tanto perdido no embate; o octógono não é lugar para rodeio. Mesmo se estivesse equipado com uma corda para laçar seu oponente, de nada ajudaria, já que apenas a distância o teria salvado no embate.

Darren avançou no combate desde o início, e Cerrone não conseguiu evitar a posição desfavorável de ter as costas coladas na grade. Dali, o lutador mais jovem foi um franco-atirador. Donald simplesmente não conseguia evitar seus socos. O lutador mais experiente até tentou uma queda, mas sem sucesso. A única coisa que estava dando certo para o Cowboy eram os seus chutes, que coloriram rapidamente a coxa direita de Darren e que também estavam entrando limpos no corpo de seu adversário.

Mas os chutes de Cerrone não estavam equilibrando o combate e logo o jovem prospecto acertaria a sequência finalizadora. Um jab bem encaixado fez um já danificado Cowboy dobrar os joelhos, mas sem cair no chão. Darren, então, seguiu com uma cotovelada de esquerda e ligou o ventilador. Donald se encolheu à grade, em apuros, e não deixou nenhuma opção ao árbitro além de declarar a vitória de Till por nocaute técnico. O dano foi tamanho que o nariz de Cerrone terminou a luta com uma fratura.

A talentosa e emocionante categoria dos meio-médios do UFC

A categoria dos meio-médios ainda traria mais agito à noite após a interrupção do árbitro, como pode ser visto no vídeo acima, durante a entrevista de Darren no octógono. O grande vencedor da noite foi até a grade para provocar Mike “The Platinum” Perry – outro jovem talentoso da divisão de peso -, que lhe esperava do outro lado. A troca de ofensas já era intensa antes da luta, e ontem ela teve o seu episódio mais inflamado. Mike está marcado para enfrentar, em dezembro, Santiago Ponzinibbio, que não é tão jovem, mas é outro talento que surgiu à pouco entre os meio-médios. No entanto, é inevitável que Perry vá enfrentar o seu rival de trash-talk em um futuro próximo.

A guerra de palavras torna ainda mais incrível a categoria de peso de até 77kg. Os meio-médios haviam sofrido grandes baixas com a aposentadoria de Georges St. Pierre ainda com o título, a queda de nível de Johnny Hendricks e até mesmo a saída de Rory MacDonald para o Bellator. Mas a categoria conseguiu se renovar, com muitos novos nomes talentosos – inclusive o tedioso campeão Tyron Woodley – e ainda a subida de muitas estrelas dos peso-leves, como Donald Cerrone, Rafael dos Anjos e Alex “Caubói” Oliveira. Não é nenhum absurdo considerá-la a categoria mais talentosa do UFC.

Vitória displicente

Karolina Kowalkiewicz fez muito menos do que poderia, mas ainda assim saiu de rosto limpo. (Foto: divulgação/UFC)

Apesar de vir de 2 derrotas consecutivas, a polonesa Karolina Kowalkiewicz era a grande favorita para o embate contra a americana Jodie Esquibel. A qualidade técnica de Karolina é inquestionável, e as 2 referidas derrotas só aconteceram porque foram contra as excelentes Joanna Jedrzejczyk e Claudinha Gadelha. Joanna e Gadelha estão merecidamente no topo da também incrível categoria peso-palha feminino, “perdoando” de certa forma as derrotas de Kowalkiewicz.

Karol estava muito ciente de suas capacidades, e sabia que tinha à sua frente uma oponente inferior, mais baixa, vinda de uma organização menor e que nunca havia sido testada. As suas qualidades lhe subiram à cabeça e a polonesa lutou como se estivesse em uma sessão de sparring em sua academia.

A luta

No primeiro round, Jodie Esquibel conseguiu pontuar bastante frente a uma Karolina que relaxou demais. Ainda assim, a polonesa conseguiu manter a oponente à distância razoavelmente bem. A superioridade da atleta da casa se percebia facilmente em qualquer entrada sua em que de fato se empenhava. Quando avançava focada, Kowalkiewicz deixava sua oponente rapidamente – e inevitavelmente – em apuros, e encaixava seus golpes sem resposta. Era uma luta que Jodie não poderia ganhar.

Karolina poderia ter dado show, mostrado todo o seu potencial, mas por algum motivo resolveu guardar suas energias. A atitude da lutadora pode ser classificada como displicente, considerando que o UFC visita no máximo uma vez por ano a Polônia; era uma boa chance de agradecer aos fãs mais fervorosos. Enquanto isso, sua oponente sofria no octógono, cada vez mais acuada e sem recursos, visto que a atleta da casa relaxou um pouco menos a partir do segundo round. Karol chegou até a tentar uma chave de braço ao final do round 2, e sua sessão de sparring continuou durante todo o 3°. O resultado final foi a inquestionável vitória da polonesa por decisão unânime.


Ground And Pound

::Lina Lansberg vs. Aspen Ladd – em sua estreia no UFC, a jovem californiana Aspen Ladd não decepcionou aqueles que nutriam grandes expectativas por ela. Com um extenso cartel amador no MMA, e 5 vitórias no profissional sem nenhuma derrota, Aspen era a favorita no embate contra Lina Lansberg, que já havia “manchado” seu cartel profissional. No 1° round, predominou o wrestling junto à grade, e sobressaíram as cotoveladas e joelhadas de Lina Lansberg, fazendo jus à alcunha de “Elbow Queen”. Mas Ladd soube absorver muito bem os golpes e não se abalou psicologicamente, mesmo diante de uma estreia tão importante. No 2° assalto, Aspen mostrou que era muito superior na trocação, atordoou a oponente e levou-a para o chão, onde fez o que quis com muita segurança. Até que o árbitro interrompeu a luta e decretou nocaute técnico durante o ground and pound da jovem prospecto.

Estreante no UFC, Aspen Ladd foi um dos destaques secundários da noite, mas depois da boa exibição, não deve tardar a ser marcada uma luta sua de maior notoriedade. (Foto: divulgação/UFC)

::Warlley Alves vs. Salim Touahri – o brasileiro conseguiu vencer sem problemas o polonês Salim. A luta ocorreu em boa parte na longa distância, e Warlley soube aproveitar muito bem sua envergadura para agredir o atleta da casa e evitar a maior parte dos contragolpes. Nos poucos momentos em que os dois se agarraram, junto à grade, Alves mostrou também ser superior no wrestling. A vitória veio em bom momento para o brasileiro, que teve os 2 primeiros reveses de sua carreira nas 2 lutas que precederam o embate na Polônia.

::Felipe “Sertanejo” vs. Josh Emmett – o embate começou com Josh Emmett atropelando o brasileiro, que sofreu diversos knockdowns durante o 1° assalto. Felipe não conseguia evitar que a mão direita de seu adversário o acertasse. No entanto, mesmo após cair diversas vezes, “Sertanejo” se recompunha e golpeava em resposta com vigorosidade. O 2° round foi melhor para Felipe, mas mesmo assim ele acertava mais o vento do que seu oponente. No 3°, Emmett voltou a acertar seus golpes, foi superior, e por isso levou a vitória por decisão dos juízes. Vale ressaltar o esforço, a capacidade de recuperação e o vigor físico do brasileiro, que manteve o ritmo acelerado até o último minuto.

::Sam Alvey vs. Ramazan Emeev – Sam mostrou mais uma vez o quão limitado é, e que sua vitória sobre Rashad Evans foi mais um demérito do ex-campeão dos meio-pesados do que mérito do primeiro. Durante a luta, o russo Ramazan Emeev foi o tempo todo superior. Oriundo do sambo, arte marcial que surgiu em seu país, o eslavo dominou seu adversário em todas as áreas. Em dado momento, ele até reduziu o gás e fez muito menos do que poderia, o que mesmo assim foi suficiente para lhe garantir a vitória por decisão unânime – e ainda sair “limpinho” do octógono. Ramazan parece ter sido uma ótima adição à então fraca divisão dos peso-médios.

::Brian Kelleher vs. Damian Stasiak – a luta parecia, no 1° round, que terminaria com a vitória do polonês, após este efetuar o característico “atropelo” do karatê, sua arte marcial de origem. Mas seu 1° real bom momento foi também o seu último. A partir de então, Brian Kelleher misturou uma pontaria melhor e mais contundente com quedas e tentativas de submissão. A eficiência de Brian cansou e atordoou seu oponente, que sucumbiu a poucos momentos do fim do 3° round.

::Jan Blachowicz vs. Devin Clark – luta de nível baixo, um tanto absurdo que tenha sido a que precedeu o co-main event. Devin Clark é bastante explosivo, mas não tem talento. Ele até teve algum sucesso trocando com seu oponente, mas este foi melhor controlando a distância. Foi um combate de poucos golpes, quando houve grapling, Jan Blachowicz foi superior, e ela terminou no 2° round com um mata-leão pouco convencional – e em pé – de Jan.

::Oscar Piechota vs. Jonathan Wilson – Piechota dominou o combate. Em pé, os 2 atletas até se equivaliam, mas Oscar era muito superior a Wilson no solo, este que ficava completamente perdido em qualquer coisa que lhe lembrasse jiu-jitsu. No entanto, Piechota cansou muito rápido, no 2° round já estava exausto, assim como seu oponente, o que pode ter sido o motivo de não ter conseguido concretizar nenhuma das finalizações que tentou. Vitória de Oscar por decisão unânime.

::Marcin Held vs. Nasrat Haqparast – oriundo de boas sequências de vitórias no Bellator – a última delas foi parada, inclusive, por uma derrota para Will Brooks, que na época era o campeão dos leves na organização -, Marcin Held venceu Nasrat, mas ainda não conseguiu se achar no octógono. Antes da luta foram 3 derrotas seguidas desde a estreia no UFC, e apesar de ter dominado seu oponente, estreante no Ultimate, faltou-lhe a capacidade de finalizar o seu oponente. O forte de Marcin é o chão, cada segundo em pé, para ele, era um atraso. Mas o lutador, mesmo no jiu-jitsu, se perdia entre tentativas e mais tentativas de finalização. Apesar do vasto repertório de submissões, nenhuma delas foi muito ameaçadora, pois Nasrat esteve sempre “inteiro” para defendê-las. O ground and pound – não efetuado por Held – certamente teria atordoado seu adversário a ponto de permitir as finalizações com mais facilidade.

::Artem Lobov vs. Andre Fili – essa foi uma daquelas lutas que, mesmo envolvendo atletas limitados, foi interessante. O que definiu o embate foi um equilíbrio entre quanto gás Fili ainda tinha para golpear e quanto Lobov aguentava apanhar. Ao final, Fili aliou técnica à uma boa estratégia para superar o cansaço. Andre soube controlar melhor a distância e puniu bastante Artem. Quando o cansaço começou a cobrar o seu preço, Fili apelou para quedas – no total 5 no 3° round – e frustrou qualquer tentativa de resposta de Lobov, vencendo por decisão unânime. A verdade é que Artem também estava cansado, além de atordoado, tornando-0 um alvo fácil para tentativas de queda.

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Giovanni Pastore

Giovanni Pastore

Carioca, 22 anos, estudante de publicidade. Desiludido com o futebol e seus 90 minutos de aflição, comecei a explorar outras alternativas e assim me descobri apaixonado por esportes de combate. Gosto da reflexão sobre o seu papel social e também sobre os negócios que os rodeiam. Dentre eles, o MMA é meu favorito, o qual olho com muita admiração, mas sem perder o olhar critico. foto por: Pamella Kastrupp



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