Uma bola de neve chamada Jair Ventura

Uma bola de neve chamada Jair Ventura
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Jair tem muitos méritos no desempenho do time. Talvez até demais (Foto: Vagner Assis/Eleven)

Uma história sobre inteligência, protagonismo e como o clube acaba se tornando refém da situação; uma bola de neve chamada Jair Ventura

É difícil, em um exercício de imaginação E FICA SÓ NA IMAGINAÇÃO PORQUE PENSAR DIFERENTE BEIRA À LOUCURA , pensar em qualquer tipo de alteração no comando técnico do Botafogo sem que o time degringole. E isso torna Jair Ventura imprescindível – sendo a renovação de seu contrato o maior trunfo para o ano que vem.

Sim, acabei de falar que qualquer pensamento em troca de comando no time é loucura – e isso pode não parecer, mas é um problemão. Não porque o Botafogo deva modificar algo – não deve – ou porque este que lhes escreve faz lobby pela mudança – não faço. Mas porque Jair Ventura, se não o maior protagonista do Botafogo na temporada (pois entendo o argumento de que os jogadores é que entram em campo), anda lado a lado com seus comandados. E Jair não ser um jogador torna o problema um pouco mais grave.

Jair não é aquele que toma as decisões no calor do jogo, mas é o homem que orienta as decisões de todos os outros – que pensa no conceito de jogo do time, nas estratégias de cada partida e que faz os jogadores entenderem qual decisão é a melhor saída em cada tipo de situação. Quando falamos de jogadores estão pensando em tomadas de decisão. Pense como seria substituir a tomada de decisão de um de nossos jogadores, coloque outro no lugar de um titular. Agora coloque outro técnico no ligar de Jair. Quantos outros nomes fazem a função de Jairzinho? Pois é…

Acontece que a ascensão de Jair Ventura ao comando do Botafogo se deu devido à falta de nome melhor para assumir a equipe. E por nome melhor entende-se: treinador de qualidade, que aceitasse assumir um time limitado no Z-4 do Campeonato Brasileiro. Isso nunca acontece. Desde então, Jair construiu bonita história no clube, e toda vez que os jogadores têm uma atuação surpreendente ouvimos que é “impressionante o que Jair Ventura tem feito o time jogar”. Retomo isso mais à frente.

O time de Jair – tudo bem, muito por sua causa – mostrou-se capaz de fazer frente à elencos superiores e até mesmo superá-los. Nos dois maiores objetivos da temporada, fomos eliminados pelo Flamengo de maneira tosca –  assistindo jogo em 180 minutos, mas nas semifinais da Copa do Brasil. Contra o Grêmio, na Taça Libertadores, chegamos a mandar em um bom período da partida derradeira. Em falha individual, caímos. Acontece, coisas do futebol. O saldo, ainda sim, é positivo.

Entretanto, eu gostaria de fazer uma comparação entre os dois jogos contra o Flamengo pelas semifinais da Copa do Brasil e o clássico perdido para o Vasco no sábado.

A indignação de Bruno Silva

Ao final do jogo, nós conseguimos ver no rosto de Bruno Silva toda a decepção de um jogador que sabe que poderia ter jogado melhor. Que ele podia mais. Que o time podia mais. Que o técnico podia mais. Ou pelo menos deveriam ter tentado mais…

Esta frase foi retirada de outro texto que escrevi sobre o Botafogo. Resolvi dar Ctrl C + Ctrl V neste trecho porque ao fim da partida contra o Vasco lembrei automaticamente de outra ocasião.

Quando o garoto vascaíno Paulo Victor aplicou uma lambreta no clássico, a indignação dos jogadores alvinegros foi geral. Bruno Silva foi tirar satisfação com o jogador – e não só ele, mais dois alvinegros se juntaram ao esporro. Não satisfeito, o volante botafoguense voltou para “trombar” o atacante cruzmaltino. Ora, precisava mesmo?

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O lance tornou o clássico memorável. Ou alguém ia lembrar deste jogo por outro motivo? (Foto: Reprodução/Premiere FC)

A questão é psicológica. Vocês se lembram da entrevista pós-eliminação contra o Flamengo? Bruno Silva, sem que a palavra sequer tivesse sido mencionada, se sentiu na obrigação de falar que “não houve covardia”. Obviamente a falta de ofensividade do time na ocasião martelava em sua cabeça. Ali estava Bruno Silva, pensando no sentimento que o time havia gerado no torcedor por ter sido tão inefetivo. Ali estava o Bruno Silva completamente indignado por não ter conseguido jogar futebol com a bola nos pés. Mas ainda fazendo o decente papel de não culpar o treinador.

Bruno Silva é o personagem que reflete o ânimo do torcedor alvinegro, um misto de confiança no treinador e frustração por nem sempre a disciplina tática dar certo. Mencionei isso no texto das semifinais da Copa do Brasil – caso você não esteja familiarizado (a) com a situação, vale a pena dar uma olhada e entender o porquê. Este texto acaba sendo um complemento daquele.

Contra o Vasco, Bruno Silva teve a mesma sensação. Novamente em um clássico. Novamente no Maracanã. Novamente um jogo que poderíamos ter ganho. Novamente um confronto com mais do que apenas 3 pontos em jogo. Novamente a mesma sensação: indignação. Indignação porque Bruno Silva sabe que jamais será ele a dar a lambreta. Pelo menos com Jair Ventura. Pelo menos este ano.

E, por isso, sim, devemos temer os boatos do jogador estar pensando em mudar-se para Belo Horizonte.

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Os caras que mais acreditam no esquema de Jair Ventura. Os mais sacrificados. E possivelmente os titulares mais criticados do elenco (Foto: Satiro Sodré/SSPress/Botafogo)

Concepção de jogo errada

A forma que o Botafogo joga – e todos nós sabemos como é – transforma tudo num big deal. A linha passa a ser extremamente tênue entre o erro e o acerto. Quando se acerta, é genial. Quando se erra, beira à covardia. E a concepção de jogo errada do Botafogo também é tema recorrente aqui no blog, tratado no texto da Copa do Brasil, contra o Flamengo – aquele que recomendei ali em cima.

Isso porque o Botafogo tem time para vencer o Vasco (também tinha para vencer um Flamengo desconsertado) – seja aonde for – jogando com a bola nos pés. Nosso jogo consiste em ceder a bola ao time adversário, nos postar atrás, esperando – postura que por vezes se altera com uma pressão mais alta, dependendo da situação do jogo. O objetivo é roubar a bola, pegar o time contrário desprevenido – de preferência de forma veloz – e produzir um contra-golpe mortal. E uma vez saindo na frente, reproduzir estes mesmos eventos até o final do jogo. Se tudo der certo, sobram espaços e fica cada vez mais fácil.

Acontece que o Botafogo tem passado tempo demais abdicando da posse de bola, esperando. Aconteceu isso contra o Flamengo e nós tivemos a nítida sensação que o objetivo de Jair Ventura era levar a partida para os pênaltis. No sábado, contra o Vasco, não havia essa possibilidade. Com um time melhor encaixado do que o rival – coisa que mostramos durante toda a temporada – o que estávamos esperando então?

Na ocasião do outro texto, chamei Jair Ventura de humilde, inteligente e moderno (elogios verdadeiros aqui). E disse que ele havia errado de maneira elementar. Deixem-me reduzir os elogios e afagá-lo com relação ao erro.

No tópico acima, disse que na dinâmica de jogo do Glorioso existe uma pequena diferença entre a genialidade e a covardia. “Humilhação” seria um termo melhor do que “covardia”. Afinal, se der certo, o time vence com frieza inigualável no futebol brasileiro. Se der errado, jogou como time pequeno. Portanto, a estratégia amplifica a vitória e transforma os equívocos em erros ainda mais rudes. E por isso, vou me retratar: não é um erro elementar, é uma aposta altamente arriscada. Uma aposta que este que vos fala gostaria de ver menos vezes. Porque quem paga essa aposta, além de Jair, é o clube, seus jogadores e os torcedores.

No então, deixem-me retirar a humildade dos elogios. Inteligência e modernidade são duas características do técnico alvinegro. A humildade… bem, essa anda faltando.

Humildade que escapa pela boca e a bola de neve que se forma

Não estou dizendo que a manutenção do técnico é uma escolha errada. Repito, deve acontecer. Mas municiar o próprio Jair Ventura com opções de qualidade resolve um problema grave: a falta de cobrança. E a falta de humildade dos elogios que vão devagarzinho alimentando o ego e criando um monstrinho. Pensem bem.

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Para Jair, não temos obrigação de classificação à Libertadores, pois em mais de 100 anos, nunca a jogamos seguidamente. O treinador nos adicionou quase 40 anos de jejum – a competição foi criada em 1960. Pegou mal (Foto: Botafogo/Reprodução)

Durante a campanha magnífica de arrancada em 2016, falou-se apenas em rebaixamento até escaparmos. Depois falou-se em Libertadores. Em 2017, jogamos jogo a jogo – sempre dando nosso máximo, é claro. Mas sempre havia o discurso de que onde o time chegasse estaria bom. Pois é, está na hora de cobranças maiores novamente.

Após a eliminação para o Flamengo, o presidente Carlos Eduardo Pereira passou a mãozinha por cima da cabeça de Jair. O presidente alvinegro, em declaração pós-jogo, disse que gostaria de ter mais peças para qualificar o elenco de Jair Ventura. O que CEP ignorou na ocasião foi o motivo da derrota, que nada ateve a ver com incapacidade.

Enfim, o Botafogo irá vender de 2 a 3 jogadores para fazer caixa e garantir um 2018 no verde. Entre as principais opções de negócio estão Gatito, Igor Rabello e Matheus Fernandes. Se faz necessária a chegada de reforços para a titularidade no ano que está por vir – e de qualidade superior às peças que temos, caso a diretoria queira equilibrar as coisas. Bom para nós que já possuímos nomes como Jefferson e Marcelo no banco, jogadores de nível equivalente.

Entendo que a situação financeira é – e deve ser – estritamente controlada. Mas contratar jogadores com status de titular é uma maneira de distribuir a pressão – e os méritos pelo desempenho da equipe. E “nos dá o direito” de retomar as cobranças. Inclusive um camisa 10 como Montillo, que perdemos durante a temporada – e podemos ter de volta no próprio Montillo temporada que vem -, força o treinador a mudar aos poucos algumas características. Com um jogador deste nível no meio campo não há porque entregar a bola por tanto tempo nos pés dos adversários.

Fato é que devemos ser gratos à Jair. Mas até quando seremos apenas gratos? Ele é um treinador de futebol, ganha bem para isso, seu time já mostrou qualidade para brigar por coisas melhores – e ele deve ser cobrado. Se é mérito dele, de encontrar uma função que caiba na habilidade de cada jogador – também é do elenco, de comprar a ideia de jogo e o discurso, e jogarem pelo treinador. Talvez até a contragosto.

Enfim, se o pior acontecer, e não tivermos melhores peças à disposição, preparem-se para mais um ano de torcida dividida entre idolatria e críticas ao treinador alvinegro.

De qualquer forma, antes refém da inteligência do que da falta de…

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Eduardo Ramos

Eduardo Ramos

Publicitário louco por esporte, em especial o bretão, e praticante de qualquer modalidade - não necessariamente bem. Defende a existência dos Estaduais, mas não levanta a bandeira contra o futebol moderno. Tentou fugir da tarefa de escrever sobre o clube de coração, mas o destino (vulgo necessidade) bateu na porta. Tenta enxergar o jogo por suas diversas nuances - visceral, cultural e mercadológica. Fala de si mesmo na 3ª pessoa. Jornalismo, qualquer dia tamo aí.



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