UFC 216: rivalidade (ou falta de)

UFC 216: rivalidade (ou falta de)
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A luta principal do UFC 216 foi intensa e terminou com essa belíssima finalização (Foto: Brandon Magnus/Zuffa LLC/Getty Images)

O UFC 216: Ferguson vs. Lee entregou mais do que prometia para o main event, que coroou o campeão interino dos leves. Mas novamente a disputa de cinturão dos moscas não chamou a atenção; o evento também foi marcado pela campanha “Vegas Strong”

Se tem uma coisa que traz graça a qualquer luta é rivalidade. A rivalidade faz de uma luta uma verdadeira batalha, origina algo capaz de fazer brilhar os olhos de qualquer fã. Assim foi o combate entre Tony “El Cucuy” Ferguson e Kevin “The Motown Phenom” Lee, que coroou o campeão interino da categoria dos leves. Enquanto Conor McGregor, atual campeão dos leves, aproveita os milhões de sua derrota para Floyd Mayweather – no boxe -, a categoria segue em frente. Afinal, the show must go on!

Toda a graça que teve o embate entre Ferguson e Lee, não teve o confronto entre Demetrious Johnson e Ray Borg. O campeão dos peso-moscas defendeu mais uma vez seu cinturão de maneira dominante, contra um adversário que não tinha nem 3 vitórias seguidas.

O último destaque da noite ficou por conta de Fabrício Werdum, que perdeu seu oponente original – Derrick Lewis – faltando 3 horas para o início do evento. Um Walt Harris apareceu para substituí-lo as pressas. Obviamente, Harris não estava à altura do brasileiro e o embate terminou rápido demais. Mas isso não impediu o brasileiro de sorrir.

O evento, assim como todas as atividades promocionais que ocorreram essa semana, também ficou marcado pela campanha “Vegas Strong”, em apoio a vítimas do massacre de Las Vegas, seus familiares e pessoas próximas.

Confira a análise da RISE Esportes dos destaques do UFC 216.

Instant classic

O embate principal do UFC 216 foi sem dúvidas o mais emocionante da noite. Gostaria de me desculpar, pois este que vos fala não conseguiu antecipar que Kevin Lee faria uma luta tão equilibrada com Tony Ferguson. A superioridade de Ferguson eventualmente apareceu, mas ele também passou por maus bocados na luta.

A contenda foi desde o princípio apimentada com intensas provocações – antes, durante e após os rounds -, o que deu origem a uma rivalidade que muito provavelmente não acabou na noite de sábado. Cada golpe resultava em trash talk de ambos os lados, fato que se somou à incrível dinâmica do combate e tornou Tony Ferguson vs. Kevin Lee um verdadeiro instant classic.

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Tony Ferguson parafraseou Capitão Nascimento durante o combate: “Quem manda nessa p**** aqui sou eu!” (Foto: Canal Combate/Reprodução)

Um embate estratégico

A estratégia de Ferguson para a luta foi a de manter Lee à distância com seu tamanho e envergadura maiores. Tony evitou combinar, com suas entradas tendo em sua maioria menos de 3 golpes. Tal decisão, na maioria das lutas, não seria sábia. Golpeando pouco, machuca-se pouco o adversário. Mas o ritmo que Ferguson impôs ao embate compensou a falta de continuidade em seus golpes. El Cucuy estava frequentemente agredindo Kevin Lee, principalmente em seu rosto.

Enquanto isso, Kevin buscava superar essa distância – e muitas vezes, conseguiu. Mais potente e rápido em seus golpes, The Motown Phenom atordoou Tony em diversas ocasiões, principalmente no início do combate. Seus socos entravam e seus chutes realmente incomodaram o adversário. No entanto, Ferguson foi se encontrando melhor no decorrer do combate e sua noção melhor de timing compensou completamente a diferença de velocidade.

O carro-chefe de Lee era o grapling e o jiu-jitsu, e durante a luta ele realmente achou que seria o caminho das pedras. Talvez pudesse até ser, estivesse seu oponente atordoado quando ia ao solo. Mas Kevin esqueceu de considerar as habilidades de Ferguson no chão, principalmente quando este está de costas no solo. Tony possui uma guarda ativa e muito perigosa, além de desfrutar de certa malícia em seu jogo. El Cucuy evitou pôr Kevin de costas para a grade porque, caso fossem ao solo, não teria espaço para trabalhar as raspagens que lhe foram decisivas no combate. Além disso, na guarda, Tony abusou de cotoveladas na cabeça de Lee, o que fez o oponente se mexer a abrir espaço para tentativas de finalização.

A luta

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Kevin Lee começou melhor o combate e seus chutes incomodaram bastante a Ferguson (Foto: Divulgação/UFC)

O primeiro round foi tenso para os fãs de Tony Ferguson. Kevin Lee surpreendeu e começou melhor, principalmente na trocação. O clima era de provocação e os dois lutadores trocaram knockdowns. “El Cucuy” chutou a perna apoio de Lee, que caiu ajoelhado. Mas pouco depois, “The Motown Phenom” atordoou Ferguson com um soco no olho e o fez dobrar o joelho. O golpe incomodou bastante a Tony, que foi perseguido por Kevin, mas na sequência ele conseguiu um contragolpe, e foi a vez de Kevin se ajoelhar.

O primeiro assalto terminou no chão. Lee conseguiu a queda, e Ferguson tentou reverter a situação. Os dois trocaram posições até que Kevin se estabilizou na guarda de Tony. Mas “El Cucuy” não ficou passivo, logo tentou um triângulo, e depois partiu para um chave de braço, ambos muito bem defendidos por Kevin Lee. “The Motown Phenom” conseguiu, então, a montada e acertou duros golpes no ground and pound, pouco antes do round terminar. Ao soar do gongo, Kevin não ouviu e continuou golpeando, o que só adicionou fogo à luta.

A experiência fez a diferença; o jogo de chão, mais ainda

No segundo round, os efeitos do primeiro foram sentidos, os dois atletas já demonstravam um cansaço. A experiência de Ferguson começou a contar nesse aspecto, pois ele soube dosar melhor o seu fôlego. Kevin ainda golpeava com potência e rapidez, e ainda conseguiu encaixar alguns chutes que incomodaram bastante “El Cucuy”, mas não houve muitos golpes subsequentes de sua parte. Enquanto isso, Tony acertou melhor o timing de seus golpes e dominou o segundo assalto. Ferguson terminou o assalto de cabeça quente e dessa vez foi ele quem encaixou um golpe após o gongo. Ele ainda se levantou enquanto seu treinador lhe instruía, e gritou para provocar Kevin, que terminou o round como rosto bastante castigado.

O terceiro round pareceu que seria de Lee, que encaixou uma queda plástica rente à grade logo no início. Mas Ferguson amarrou a luta muito bem e Kevin optou por levantar. “The Motown Phenom” além de estar mais cansado que “El Cucuy”, ainda estava atordoado pelos golpes que havia sofrido no segundo round.

O triângulo que finalizou a luta a 1 minuto do fim do terceiro round (Foto: reprodução/Canal Combate)

Quando a tontura do cansaço e dos golpes sofridos se misturam, há poucas saídas para um lutador. Kevin tentou uma queda, outro double leg, e caiu na guarda de Ferguson, que teve a possibilidade de trabalhar melhor sua guarda ativa. Apesar de por cima, era Lee que estava sendo golpeado, por uma série de cotoveladas em sua cabeça. Travado, golpeado, atordoado e cansado, “The Motown Phenom” virou uma presa fácil para Tony Ferguson, que encaixou o triângulo que levou Kevin a bater.

Apesar da rivalidade, respeito e admiração

Em alguns momentos da luta, ambos os lutadores pareciam estar levando o confronto bastante à sério, inclusive para o lado pessoal. Não era para menos, havia muito em jogo. Além do cinturão interino da categoria, há a possibilidade de o vencedor do confronto enfrentar Conor McGregor – em uma luta que com certeza será milionária. Nas palavras do próprio irlandês, todos os que lutam com ele têm ao menos uma Red Panty Night – a noite da calcinha vermelha, do dinheiro e da luxúria.

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O momento que demonstra toda a admiração pelo adversário lhe ter proporcionado uma ótima luta (Foto: Divulgação/UFC)

Apesar disso, o respeito entre os atletas sobressaiu. Logo após Kevin bater em desistência, Ferguson se ocupou em parabenizá-lo pelo bom combate. No momento do anúncio oficial, Lee estava inconformável e Tony se aproximou para consolá-lo, o que rendeu o bonito momento da foto. No entanto, não é que a rivalidade tenha morrido. Uma derrota ainda é uma derrota, especialmente valendo a chance de enfrentar Conor McGregor.

Kevin Lee mostrou ser, de fato, talentoso no combate – e ainda o veremos por bastante tempo entre os tops da categoria. A tendência é que ele (que tem 25 anos) se desenvolva bastante, enquanto a Ferguson (com 33) caia gradativamente de rendimento. Ou não – como aconteceu com Michael Bisping, Demian Maia e Rafael dos Anjos. Lee chegou ao topo da categoria e é hora de jogá-lo aos outros leões dos peso-leves.

Demetrious Johnson vs. Ray Borg: pouco a se falar sobre

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Demetrious Johnson finalizou Ray Borg. Isso é tudo, pessoal! (Foto: Divulgação/UFC)

O que acontece quando o campeão vem de 10 defesas de cinturão bem sucedidas e enfrenta alguém que emplacou apenas 2 vitórias consecutivas? A foto acima diz tudo. Demetrious dominou o combate do início ao fim e tornou bastante sem graça o recorde conquistado: Mighty Mouse Johnson é o campeão com mais vitórias consecutivas em defesas de cinturão do UFC. Agora, seria bom que Demetrious ficasse um bom tempo “na estante”, esperando um desafiante de fato merecedor.

Vai, Cavalo!

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Aquela comemoração de quem precisava da vitória para levantar a moral (Foto: Divulgação/UFC)

Fabrício “Vai Cavalo” Werdum voltou a sorrir no octógono na noite deste sábado. Derrick “The Black Beast” Lewis saiu devido à uma lesão nas costas poucas horas antes do combate. Seu surpreendente substituto foi Walt Harris. O peso-pesado não estava nem de perto do nível de Fabrício (possuía um cartel de 10-5). Mas foi corajoso em aceitar o combate, apesar de não ter nada a perder.

Infelizmente Walt Harris nada conseguiu fazer. Chegou a ensaiar soltar alguns golpes, até que Werdum o derrubou e caiu por cima. O brasileiro pode então praticar seu jiu-jitsu. Em poucos segundos, o Cavalo conseguiu a montada. Walt Harris se desesperou, cedeu as costas e deixou solto seu braço. O brasileiro então terminou o combate com uma chave de braço em pouco mais de 1 minuto.

A vitória-relâmpago vem em bom momento para Werdum, que vinha de uma derrota para Alistair Overeem. O triunfo, embora sobre um adversário modesto, deve colocá-lo de volta à fila da disputa do cinturão – que perdeu para Stipe Miocic.

Vegas Strong

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Dana White, como sempre, à frente de tudo o que acontece com relação ao UFC (Foto: Hans Gutknecht/Los Angeles Daily News/SCNG)

Ao longo de toda a semana do UFC 216 esteve em voga a campanha Vegas Strong, do Ultimate. O massacre que ocorreu domingo passado em Las Vegas impactou a organização. O UFC já sediou muitos eventos no Mandalay Bay, de onde foram efetivados os disparos. A cidade é a principal casa do Ultimate – inclusive o evento 216 foi realizado em Vegas, mas na T-Mobile Arena.

Como forma de gratidão, a organização anunciou que irá doar 1 milhão de dólares para as vítimas, seus familiares e pessoas próximas, na tentativa atenuar seu sofrimento. Além disso, está à venda na loja internacional da organização a camiseta da campanha, que foi utilizada pelo presidente e pelos lutadores durante todas as atividades promocionais e também no dia da luta. Todo o dinheiro arrecadado com a venda das camisas será destinado aos afetados pelo massacre.

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Giovanni Pastore

Giovanni Pastore

Carioca, 22 anos, estudante de publicidade. Desiludido com o futebol e seus 90 minutos de aflição, comecei a explorar outras alternativas e assim me descobri apaixonado por esportes de combate. Gosto da reflexão sobre o seu papel social e também sobre os negócios que os rodeiam. Dentre eles, o MMA é meu favorito, o qual olho com muita admiração, mas sem perder o olhar critico. foto por: Pamella Kastrupp



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