Prévia do UFC 216: Ferguson vs. Lee

by Giovanni Pastore | 7 de outubro de 2017 13:42

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Estilo não falta no main event do UFC 216, mas falta habilidade à Kevin Lee (Foto: Esther Lin/MMA Fighting)

O UFC 216 terá a disputa de cinturão interino dos leves, mais uma defesa de cinturão de Demetrious Johnson e Fabrício Werdum no card principal

O mundo do MMA é um espetáculo à parte. A liberdade que os promotores têm em casar lutas às vezes nos deixa indignados, principalmente quando ela envolve o cinturão de uma categoria. “Por que lutador tal, com 7 vitórias seguidas, não recebeu chance, e esse que vem de apenas 3 sem perder é o atual desafiante?” E tudo fica mais volátil quando Conor McGregor é campeão de alguma categoria e o UFC tem que inventar um título interino porque the show must go on.

A disputa da cinta interina dos leves apresenta uma diferença de habilidade entre os atletas que até desanima. O mesmo pode ser dito da contenda pelo título dos moscas, em que deram a Demetrious Johnson a facilidade de enfrentar um oponente que vem de apenas 2 vitórias em sequência.

O que salva o card é que veremos os talentos Tony Ferguson, Demetrious Johnson e Fabrício Werdum lutarem, mesmo que não com oponentes à altura. E o resto das lutas, embora entre lutadores de menos destaque, sempre acabam por oferecer algo mais – por conta da quantidade e não da qualidade.

Confira a prévia da RISE Esportes para o UFC 216, cujo card preliminar começa às 19:30 e o principal às 23:00.

Tony “El Cucuy” Ferguson vs. Kevin “The Motown Phenom” Lee: um duelo desigual

O duelo para o fã mais distraído pode parecer bastante interessante, mas não é tanto assim. E isso não se deve a Tony Ferguson – mas sim a Kevin Lee.

Ferguson é um lutador cascudo, duro, por mais “magrelo” que seja. Além disso, possui muitos recursos e vem mostrando constância e melhoramentos a cada combate. Sentimos isso na pele como brasileiros ao ver a surra doutrinadora que Ferguson aplicou em Rafael dos Anjos, ex-campeão da categoria – que derrotou tanta gente que teve que vir um atleta de outra organização para lhe tirar a cinta. Antes de Tony, o brasileiro era “o cara” das surras doutrinadoras da categoria dos leves do UFC.

Já sobre Kevin Lee, não se pode enaltecer tanto assim. Certamente há talento no jovem de 25 anos, mas ainda há muito a ser lapidado. A sua trajetória ao topo da categoria e à disputa do cinturão interino foi um tanto artificial e apressada. Muitos diriam que ela foi “à lá Conor McGregor”. Mas não é para tanto, pois o irlandês a fez de forma incrível, e Lee nem tanto; não vemos em Kevin a mística que surgiu em torno de Conor, e não é à toa.

A verdade é que será a primeira vez que o jovem de 25 anos será testado, e justamente contra o que seria mais próximo de um campeão moral da categoria – já que McGregor não se ocupou em ser um campeão de fato. Tony vive o melhor momento de seu desempenho físico e técnico, enquanto Lee tem em sua vitória mais notável a submissão de Michael Chiesa – que possui certa habilidade, mas não está nem perto dos tops da categoria. Enquanto isso, Ferguson colecionava vitórias para cima de Edson Barboza, Gleison Tibau, RDA e companhia limitada. Deve ser uma luta fácil para ele.

Demetrious “Mighty Mouse” Johnson vs. Ray “The Tazmexican Devil” Borg: ausência de rivalidade

Demetrious Johnson foi o único campeão que a categoria peso-mosca do UFC conheceu (Foto: MMA Junkie)

Desde a sua estreia no UFC, a divisão dos moscas é uma das mais polêmicas – e a mais desacreditada. Entre os motivos alegados por muitos para reclamar da categoria, os mais frequentes são o tamanho dos lutadores (julgam-nos pequenos demais) e o ritmo da luta. De fato, para quem assiste, parece até outro esporte.

Quando foram incorporadas as categorias mais leves do UFC, com a aquisição do WEC, havia de fato um certo preconceito. No modelo mental de quase todo fã, um lutador era uma pessoa alta, forte, musculosa – e os moscas estão um pouco longe disso. No entanto, para as categorias peso-galo e peso-pena, isso foi superado. Ainda, as mulheres entraram no UFC, conquistaram seu espaço em menos de 2 anos, e agora quase todo fã sabe que não é uma boa ideia perder um embate entre lutadoras no topo da categoria das palhas – que é ainda mais leve do que a dos moscas.

Então por que ainda se debate se a categoria dos moscas deve ser encerrada e por que ainda persiste o desinteresse? Há muitos que dizem que a culpa é do reinado de Demetrious Johnson e sua falta de habilidade em vender suas lutas. Essa é uma opinião um tanto equivocada, pois há campeões pouco carismáticos em outras categorias e ninguém está debatendo encerrá-las por conta disso.

A respeito do ritmo da luta e o tamanho dos lutadores, de fato ele é um pouco diverso, mas cada categoria tem a sua própria singularidade – e o fato por si só não explica. As palhas, por exemplo, pelo desenvolvimento do MMA feminino ter se dado mais tardiamente, ainda demonstram pouca habilidade no solo – o que acarreta muitas trocas loucas de posições, em ritmo que se assemelha ao da categoria peso-mosca masculino. E ninguém está reclamando – aproveito aqui para alfinetar as categorias masculinas: o quanto realmente elas estão tecnicamente desenvolvidas? Vemos um domínio geral da trocação e da luta agarrada, ou ainda há muitos lutadores ranqueados que deixam a desejar em alguma delas? O quanto realmente estão os homens à frente das mulheres, com relação à técnica no MMA?

O cerne da questão

Há duas lutas atrás, Ray Borg (dir.) perdeu para Justin Scoggins (esq.), que ninguém sabe quem é (Foto: Getty Images)

O real motivo da baixa popularidade da divisão dos moscas se explica através da disputa de cinturão desta noite. Ray Borg vem de uma mísera sequência de 2 VITÓRIAS SEGUIDAS! Quem conseguiria vender uma disputa de cinturão entre o melhor peso-por-peso do mundo – depois de Jon Jones, apesar do doping – e um lutador que não consegue vencer 3 lutas seguidas?

Fosse algo que está acontecendo pela primeira vez, até poderia-se compreender, mas essa tem sido a regra na divisão dos moscas. Das 11 lutas valendo a cinta da divisão, em apenas 2 ocasiões os oponentes de Demetrious Johnson vinham em uma sequência maior do que 3 vitórias. Para efeitos de comparação, Conor McGregor vinha de cinco resultados positivos no Ultimate quando teve sua luta contra José Aldo. O fato é que o UFC não constrói boas rivalidades entre o campeão dos moscas e os seus desafiantes, porque ele as destrói antes mesmo que elas possam surgir.

Fabrício “Vai Cavalo” Werdum vs. Derrick “The Black Beast” Lewis: para voltar aos trilhos da categoria

Quando Werdum conquistou o cinturão dos peso-pesados do UFC, não foi à toa. Ele era o que havia de melhor na divisão. Sua origem do jiu-jitsu combinou perfeitamente com os ensinamentos de muay thai do mestre Rafael Cordeiro, além de não ficar para trás no wrestling. O resultado foi a sequência de vitórias que o levou ao título. E antes de conquistá-lo, e ao defendê-lo, Fabrício mostrou qualidades de campeão, para além da proeza técnica, que fizeram acreditar que seu reinado duraria bastante.

Entre tais qualidades, um campeão deve ser capaz de achar a saída em uma situação ruim, como Werdum o fez em sua luta contra Mark Hunt, em que levava um atraso na trocação contra o maior nocauteador da divisão, mas conseguiu achar uma joelhada voadora salvadora, que levou Hunt à lona.

Outro momento decisivo e surpreendente foi a sua luta contra Caín Velasquez, tido como um dos melhores pesados de todos os tempos. Werdum mostrou um QI de luta exorbitante, soube ser paciente e esperar o melhor momento para finalizar. A luta começou com um atropelo de “Vai Cavalo”, que poderia ter nocauteado logo no início. Mas o brasileiro se conteve, pois sabia do risco que Velasquez representava. Caín já estava atordoado, não havia porque Fabrício apressar uma finalização e se arriscar. Ele passou a escolher seus golpes, cozinhando a luta, deixando seu oponente “eternamente” grogue. Até que Velasquez tentou uma queda desesperada e expôs o pescoço para a guilhotina de Werdum.

A queda do campeão: não será difícil voltar ao topo

O nocaute vergonhoso de Stipe Miocic em Fabrício Werdum (Foto: Getty Images)

Mas esse Fabrício Werdum que limpou sua categoria e foi campeão se perdeu em sua terceira defesa de cinturão, contra Stipe Miocic. Lutando em casa, em Curitiba, um misto de excesso de autoconfiança e a cobrança de vencer em seu lar pareceram ter distraído completamente o campeão. Toda a maturidade e calma demonstrada contra Mark Hunt e Caín Velasquez se perdeu quando Werdum partiu loucamente para cima de Miocic. O desafiante só precisou andar para trás e contragolpear para nocautear de forma vexatória o brasileiro, no primeiro round.

Após perder o cinturão, Werdum ganhou do limitado Travis Browne sem maiores problemas e perdeu para Alistair Overeem, em uma luta que foi lá e cá e terminou em decisão dividida. Alistair se encontra em um dos melhores momentos de sua carreira, então podemos perdoar o brasileiro e relevar – um pouco – essa derrota. Uma vitória hoje contra Derrick “The Black Beast” Lewis colocaria Fabrício de volta aos trilhos da categoria. Derrick é um ótimo adversário para isso: é muito forte, mas é limitado e tende a cansar muito rápido em seus combates. No entanto, uma derrota o colocaria longe de qualquer hipótese de contestar a cinta por um bom tempo.

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