Brilho eterno de um talento sem lembranças

Brilho eterno de um talento sem lembranças
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Jules Bianchi nasceu em Nice, na França, e competiu na Formula 1 por dois anos pela extinta Marussia (Foto: SkySports/F1)

A proximidade do GP do Japão traz à tona uma memória já esquecida pela cúpula da F1 – a história de Jules Bianchi

Falar de Suzuka é lembrar de Michael Schumacher e suas 6 vitórias no circuito. É lembrar da caída, mas antes brilhante McLaren, com suas 9 vitórias – parte delas provenientes da maior disputa já vista na categoria, entre Prost e Senna. Desde 2014, porém, uma das provas mais importantes da Formula 1 ganhou uma faceta mais infeliz.

Automobilismo é sobre sacrifício. Não somente no que diz respeito à entrega e dedicação, mas também à renúncia de alguns jovens talentos em detrimento de outros mais promissores. Muito antes do fatídico 5 de outubro de 2014, Jules Bianchi demonstrava fazer parte do segundo grupo: o piloto teve uma veloz e bem-sucedida passagem pelas categorias de base e, na Formula 1, se destacou após um curto período correndo pela Marussia. Piloto de testes da Ferrari, ele seria o herdeiro natural do lugar que provavelmente Kimi Raikkonen deixará na scuderia em breve. Mas o cenário mudou na curva Dunlop, a dobra 7 do circuito de Suzuka. Um guindaste se pôs em seu caminho e colocou um ponto final em uma carreira promissora. A história de Jules caiu no esquecimento.

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Bianchi foi piloto de desenvolvimento da Ferrari e era um dos principais nomes para assumir uma vaga na equipe (Foto: Scuderia Ferrari/Reprodução)

Jules Bianchi – a promessa

As raízes de Jules no automobilismo são de longa data. O ex-piloto era neto de Mauro Bianchi, corredor italiano que participou de alguns torneios fora do campeonato oficial da Formula 1 nos primórdios da categoria. Também era sobrinho-neto de Lucien Bianchi, irmão de Mauro, que competiu pela maior categoria de automobilismo do mundo em meados dos anos 50 e foi campeão das 24 Horas de LeMans em 1968.

Fã de Michael Schumacher, o francês teve seu primeiro contato com o esporte à motor por volta dos 3 anos de idade por influência da família paterna – e só parou, literalmente, quando deixou este plano. Do kart, foi para a categoria dos open wheel em 2007, correndo pela Formula Renault 2.0 francesa e tornando-se campeão em seu primeiro ano. No ano seguinte, Jules transferiu-se para a F-3 Europeia, terminando em 3º naquela temporada. Esperou apenas mais um ano até sagrar-se campeão com 9 vitórias e 6 poles em 20 provas. Em 2010, passou a correr pela GP2, mas apesar de ter impressionado com tamanho talento, consistência e maturidade, não conquistou o título nos 3 anos em que passou na categoria de base. Após um período dividindo-se como piloto de testes da Ferrari e da Force India, Bianchi fez a sua estreia na Formula 1 em 2013, pela Marussia, equipe que honrou até o fim de sua curta carreira.

O ex-corredor influenciou diretamente o desenvolvimento da carreira de Charles Leclerc, piloto monegasco e irmão mais novo de seu melhor amigo, Lorenzo Leclerc. Charles contou com a assistência de Bianchi desde seus primeiros passos no kart e hoje é campeão da GP3 – além de atual líder da Fórmula 2 (ex-GP2). O jovem de 19 anos é membro da academia de pilotos da Ferrari, assim como foi seu tutor, possuindo um talento igualmente promissor, e está cada vez mais próximo da Fórmula 1.

O acidente

Aos 25 anos, Bianchi foi vitimado por uma lesão cerebral chamada de lesão axonal difusa, causada pelo choque de 254G (a força da gravidade). O valor, segundo a Comissão de Segurança da Federação Internacional do Automobilismo (FIA), é equivalente à queda de um carro à 48m de altura.

Seu nome também não saiu ileso do acidente: o francês foi considerado responsável pelo ocorrido na apuração feita pela comissão da FIA, que investigava o caso. Em outras palavras, segundo a federação, o que causou sua morte (nove meses após o incidente) não foi a existência de um trator na pista sem que houvesse um carro de segurança. Tampouco a presença da bandeira verde naquele setor. O motivo apontado pela comissão foi o equívoco da vítima ao não desacelerar o suficiente para evitar a pancada, mesmo em uma pista encharcada e com níveis de chuva acima do tolerável. Não obstante, a equipe não avaliou necessária a assistência de um safety car na ocasião.

Feriu-se piloto e feriram-se seus entes queridos. A família de Jules entrou na justiça contra a FIA, a Marussia (ex-equipe do jovem, hoje extinta após dificuldades financeiras) e a Formula One Management (FOM), na época gerida pelo controverso Bernie Ecclestone. O apoio dos ex-colegas do filho na batalha judicial foi alento necessário, mas claro, não publicamente – o que já era mais do que esperado quando se bate de frente com forças tão grandes. Da tragédia, algo bom floresceu: os pais de Bianchi trabalharam na criação de uma associação que fornece ajuda à jovens pilotos, a Jules Bianchi Association. Ainda assim, o trauma permanece. O envolvimento direto de seus familiares com a Formula 1 hoje é quase nulo, na tentativa de evitar relembrar a tragédia que levou seu garoto.

E o que veio da parte da FIA, teoricamente responsável pela segurança de seus pilotos? Não admissão de sua parcela de culpa, mas a “aposentadoria” do número escolhido pelo francês (17), como forma de homenagem; a adoção do safety car virtual; e, algum tempo depois, o debate a respeito da introdução do halo como forma de proteger a cabeça dos pilotos – mas não antes de outra morte em circunstâncias completamente diferentes. Justin Wilson faleceu em acidente durante o GP de Pocono da IndyCar, em 2015.

Apesar da tragédia ter despertado um sentimento de preocupação com as vidas de seus pilotos na FIA – desacostumada com acidentes fatais após mais de 20 anos –, o fato caiu, aos poucos, no esquecimento. Assim como o próprio Bianchi. Pouco se sabe sobre algum tipo de assistência da federação à família e ao seu projeto. E, para piorar, parece não ter havido mudança alguma em sua postura quanto ao ocorrido.

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Em 2014, Bianchi conquistou em Monaco dois pontos que foram primordiais na sobrevivência de sua equipe na temporada seguinte. (Foto: Autosport)

Com a FOM sob nova direção, é possível pensar que, se fosse hoje, as coisas pudessem ser diferentes. Talvez aquele GP tivesse sido cancelado – já que o país sofria os efeitos de um tufão, o Phanfone. Os riscos pareciam altos demais – e realmente foram. Entretanto, cancelar uma prova, dado o prejuízo financeiro que acarreta, está sempre fora de cogitação.

É fato que, para a cúpula da F1, Jules Bianchi tornou-se uma memória a ser esquecida, mesmo levando em conta as circunstâncias do incidente que tirou sua vida – e, principalmente, o nível que o jovem piloto poderia ter atingido. Talvez não seja tão exagerado dizer que ele foi sacrificado em nome de orgulho e ganância. Mas na cabeça de quem importa, o que inclui os fãs de automobilismo, apesar da consternação pelo que aconteceu, o brilho do francês e a admiração por ele são eternos. Agora com a Liberty na gestão da principal categoria automobilística, trazendo novos e necessários ares, espera-se que fatalidades como essa – que podem ser evitadas – fiquem no passado.

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Bruna Rodrigues

Bruna Rodrigues

Jornalista em formação, flamenguista de nascimento e fã de automobilismo – em especial, F1 e IndyCar. Transfere para as palavras a emoção e a paixão que o esporte desperta e, nas horas vagas, também é fã de ficção científica. Vida longa e próspera!



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