Por que o Cruzeiro campeão é bom para o futebol brasileiro?

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Atura ou surta: vão precisar engolir o Cruzeiro campeão (Foto: Reprodução/Goal)

As reações ao título da Raposa fazem parecer que o Cruzeiro é um intruso em uma festa formatada para o Flamengo


Aviso: àqueles que abriram o texto pensando ser esta uma explanação contra o Flamengo, fechem. Ou melhor, leiam. O assunto é o foco que a mídia dá ao time a em detrimento do time b – e porque isso acontece. Gostaríamos inclusive que os flamenguistas deixassem de lado a decepção pela perda da Copa do Brasil e refletissem conosco.


O resumo dos 180 minutos da decisão da Copa do Brasil é: o Cruzeiro Esporte Clube sagrou-se campeão da competição pela 5ª vez frente ao Flamengo. O jogo do Maracanã terminou empatado em 1×1 e foi relativamente equilibrado. Na partida de volta, no Mineirão, o Cruzeiro atuou ligeiramente melhor, mas a partida foi para os pênaltis. E o destino ajudou a Raposa a conquistar mais uma taça para sua sala de troféus.

Ao som do apito final, a tradicional arte do campeão apareceu na tela de nossos televisores, estivessem eles sintonizados na TV aberta ou fechada. No entanto – fora, é claro, das transmissões dentro de Minas -, o tom utilizado pelos narradores para anunciar o título celeste não parecia acompanhar o clima de festa. Teoria da conspiração? Vejamos…

Na beira de campo (e aqui devo frisar: deve-se sempre relativizar entrevistas dadas no pós-jogo) ao final da partida do título, pudemos identificar um incômodo nas palavras do lateral Diogo Barbosa, do Cruzeiro, um dos destaques da competição. Em momento nenhum o jogador alfinetou o Flamengo em suas declarações, inclusive ressaltou a qualidade do rival. Mas foi evidente a crítica feita à imprensa. Segundo o jogador, subestimaram seu time durante toda a competição. Aqueles que acompanharam o pós-jogo puderam ver inclusive uma jornalista perguntando ao jogador, em tom descontraído, se era uma alfinetada à imprensa. Bem, era.

Em declaração ao Esporte Interativo, Diogo disse:

Costumo dizer que as coisas para o Cruzeiro neste ano tem sido na superação. Foi um jogo difícil, uma equipe de muita qualidade como o Flamengo. Mas mexeram com o brio de homens. Todos os jogos apontavam os outros times como favoritos, classificados, mas esqueceram o peso dessa camisa, essa camisa é muito pesada.

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O lateral tem motivo para reclamar da pouca atenção dada à Raposa (Foto: Instagram/Diogo Barbosa)

O Cruzeiro realmente parecia o azarão – e isso é culpa do próprio clube. E o descrédito do Cruzeiro em relação aos outros postulantes ao título começou nas quartas-de-final, no Allianz Parque, no duelo dos Palestras. Após amassar o Palmeiras durante toda a primeira etapa e levar um 3×0 para o vestiário, o time das Minas Gerais deixou os donos da casa empatarem. Mesmo levando uma vantagem interessante para Belo Horizonte, o Cruzeiro passou a ser fortemente questionado – e, por isso até, subestimado.

O Palmeiras ficou pelo caminho. Depois o Grêmio – em demonstração de personalidade do time cruzeirense, principalmente no segundo jogo. E para o confronto de volta contra o Flamengo, a crônica esportiva ainda estava em cima do muro no que diz respeito a apontar um favorito – mesmo após a segura atuação no Maracanã. O Cruzeiro vinha de uma série invicta, unindo a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro. Mas pouco se falou dos mineiros.

Aliás, inclusive para o mal. O time celeste tinha o artilheiro da Copa do Brasil, Rafael Sóbis, que não jogou por suspensão. E Sassá, a melhor arma do time, também não pôde jogar, pois já havia atuado pelo Botafogo. Eram duas ausências de muito peso para o Cruzeiro, muito embora Sóbis ande mal das pernas. Mas foram minimizadas, pouco pareciam importar. E não pelo futebol apresentado pelo Cruzeiro. Mas porque pouco se falou dos mineiros.

A tecla que a imprensa mais bateu foi o discurso de que, apesar de jogar em casa, não havia vantagem para a Raposa.

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O símbolo na camisa não nos deixa mentir: o Cruzeiro é o campeão da Copa do Brasil (Reprodução/Cruzeiro)

A imprensa e o valor da notícia

E o que o Flamengo tem a ver com isso? Tudo e nada.

Tudo. Bom, primeiramente precisamos encarar um fato: o Flamengo é o time de maior visibilidade no país. E isso não tem a ver com o número de títulos. Tem a ver com torcida. Porque o retorno é mensurável – tanto para os investidores (afinal, emissoras de TV não deixam de ser investidores) quanto para o clube. Neste caso, vamos descartar o segundo caso e falar apenas sobre mídia.

De acordo com o último censo das torcidas encomendado pelo LANCE! ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (o famoso IBGE), realizada em 2014 – ok, faz bastante tempo, mas a pesquisa foi divulgada pelo periódico em maio deste ano -, o Flamengo aparece com 32,5 milhões de torcedores. Na mesma pesquisa, o Cruzeiro aparece com 6,2 milhões.

Pesquisas de torcida são altamente questionáveis, mas a verdade é que o Flamengo sempre teve o maior número de fãs no país. E aí você se pergunta: e daí? Daí que a torcida é o principal fator definidor de visibilidade para os clubes no Brasil. Lembra que eu disse que o retorno é mensurável? Então, é por isso.

Não tem jeito para os anti: vão ter que aturar o Fla também (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)

Não é título? Não, não é título. Ou pelo menos não neste caso. Se o Flamengo tem 6 Brasileiros, 3 Copas do Brasil, 1 Libertadores e 1 Mundial, o Cruzeiro tem 4 Brasileiros, 5 Copas do Brasil e 2 Libertadores. Atribua aqui o valor que quiser às competições: apenas isso não justifica a diferença de tratamento dada a estes times.

Ao negociarem seus direitos de transmissão com as emissoras, os clubes recebem mais de acordo com o número de torcedores que possuem. Porque quanto mais torcida, mais televisores sintonizados no canal X haverá em dia de jogo – e mais pontos no IBOPE o canal X ganha.

Pontos no IBOPE significam audiência. E tem gente querendo a sua atenção. Funciona assim: as marcas enxergam uma oportunidade no jogo do seu time. Então elas pagam o canal X. O canal X transfere parte deste dinheiro para o seu time em troca dos direitos de transmissão. Ou seja, para ver o seu time jogar pela TV, você vai ter que assistir o anúncio da tal marca no canal X (muitas vezes o único a transmitir a partida). É assim que a engrenagem gira.

O Flamengo tem pelo menos quatro vezes o potencial de audiência do Cruzeiro. E não há motivo para vergonha, afinal, o Flamengo tem pelo menos o quádruplo de torcedores de metade dos grandes clubes – aliás, este é um dos tabus que precisa cair no futebol brasileiro. O fato é que falar sobre o Flamengo é mais rentável para as emissoras do que falar de outros clubes.

Bom, e qual culpa o Flamengo tem nisso? Nenhuma. Nenhuma mesmo. O Flamengo, ao passo que lucra com sua visibilidade exacerbada, também sofre as consequências disso. Se o sucesso do rubro-negro gera mais assunto para a mídia, o fracasso também gera bastante material.

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Parece que na história do futebol apenas Muralha pulou pênaltis para o mesmo lado (Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo)

Quando o trabalho é mal feito

Os times do eixo Rio-São Paulo sempre tiveram maior atenção da imprensa brasileira sobre os outros. E isso se dá por diferentes fatores, históricos e econômicos, inclusive. Mas isso não chega a ser surpreendente, visto que os times mineiros e gaúchos também possuem mais visibilidade em relação aos clubes do Nordeste, como Bahia e Sport.

A questão passa a ser sobre imparcialidade. Ninguém estava fazendo lobby para que o Flamengo vencesse a Copa do Brasil. Mas quando a empolgação na voz do narrador não tem o tom característico de uma final de campeonato, há algo de errado. É deixar-se influenciar pelos interesses do canal X.

O lugar comum durante o pós-jogo e também a manhã seguinte de Cruzeiro x Flamengo foi cobrir a festa do título e exaltar o jogo do time cruzeirense. Mas já durante a tarde – e no decorrer de toda a semana que se passou – o assunto da crítica foi… Flamengo. E durante a própria quarta-feira, seguiram-se mesas-redondas imediatamente após o jogo que falavam, principalmente, sobre Flamengo. No dia do título! E nem veículo de comunicação carioca era.

Por que o Cruzeiro campeão é bom para o futebol brasileiro?

O título do Cruzeiro, um time de Minas Gerais, fora do eixo Rio-São Paulo é um respiro ao futebol brasileiro. É jogar contra os “anseios” da mídia. Alguns clubes, mesmo dentro do eixo, também vivem algo parecido. O Botafogo, que começou a ser preterido na mídia pelo grande jejum de títulos que vive. O Vasco, que acumulou rebaixamentos e sofre represália da imprensa (até certo ponto inteligível) pela maneira como o clube é dirigido.

E até mesmo o Santos, por ser um clube “do interior”. Sim, o Santos de Pelé ainda sofre com a falta de visibilidade. Se vocês já ouviram falar do Trio de Ferro Paulista, você entende o que estou falando.

O Cruzeiro é o intruso na festa de cariocas e paulistas. O Cruzeiro campeão é desafiar o status quo. Seria assim com o Atlético-MG, com o Grêmio, com o Inter. Seria assim também com Atlético-PR, Bahia, Coritiba, Sport e Vitória. Resumindo, a vitória de qualquer time fora do eixo Rio-São Paulo é uma maneira de democratizar o futebol – inclusive porque, em geral, estes times recebem menos dinheiros das famigeradas cotas de TV.

Não se trata de vilanizar o time a ou o time b, mas entender porque há mais “boa vontade” na pauta de alguns veículos mais abrangentes na comparação entre os clubes. Neste emaranhado, cada um defende os próprios interesses. Assim caminha a humanidade. E assim segue o futebol brasileiro.

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Eduardo Ramos

Eduardo Ramos

Publicitário louco por esporte, em especial o bretão, e praticante de qualquer modalidade - não necessariamente bem. Defende a existência dos Estaduais, mas não levanta a bandeira contra o futebol moderno. Tentou fugir da tarefa de escrever sobre o clube de coração, mas o destino (vulgo necessidade) bateu na porta. Tenta enxergar o jogo por suas diversas nuances - visceral, cultural e mercadológica. Fala de si mesmo na 3ª pessoa. Jornalismo, qualquer dia tamo aí.



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