Juntem os farrapos, ainda há luta

Juntem os farrapos, ainda há luta
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Nada de novo na América do Sul. Ruim para o futebol (Foto: Pedro H. Tesch/Agência Eleven/Gazeta Press)

Na noite do feriado da Revolução Farroupilha, o Botafogo saiu do Rio Grande esfarrapado; mas não é hora de baixar a guarda, ainda há luta

A frustração é grande pela eliminação da Libertadores. Brigas começaram – alguns acham que deve-se apoiar o time, outros estão full pistola com o período de seca do clube. Acredito que todas as partes nesta discussão tenham direito às suas opiniões. A saída é o equilíbrio. Se pararmos para pensar, os jogadores, nas duas eliminações, tiveram pouquíssima culpa. Na primeira, confiaram em uma proposta de jogo ruim. Na segunda, faltou recurso. E tendo em vista a situação do clube, a culpa diminui mais ainda. Então, com calma e equilíbrio, vamos analisar os fatos mais recentes e os problemas estruturais do time. A hora é de recolher nossos farrapos. A batalha já foi, mas a guerra ainda não está perdida.

A tragédia da Arena

A partida ofereceu tudo o que um jogo de Libertadores precisa para ficar marcado na história. Duelos sensacionais, como os embates protagonizados nas diversas faixas do campo vão ficar no imaginários dos fãs do esporte por algum tempo. Futebol-raiz, que, se não nos deixou satisfeitos por conta do resultado, mostrou que temos qualidade suficiente para amassar qualquer adversário. Pelo menos durante 45 minutos.

O Botafogo utilizou o início da partida para estudar rapidamente como o Grêmio iria se comportar. Os donos da casa tomaram a iniciativa – algo que parecia uma pressão permitida pelo alvinegro, como que para confirmar se nada havia mudado no tricolor. Não havia – a volta de Michel ao time titular em nada alterou a estrutura do time. Mapeado o esquema, ficou fácil para o Glorioso castigar o time dirigido por Renato Gaúcho.

Tudo como de costume. Então, o que deu errado?

Primeiramente, fora críticos! Não tratarei aqui de condenar Matheus Fernandes pela falha no gol. De certo não pode acontecer o que aconteceu, o cochilo do volante foi fatal. Mas o garoto é talvez o melhor valor alvinegro e precisa de tempo para evoluir. Muito se questionou se um jogador tão jovem deveria estar na marcação do experiente Lucas Barrios. Pergunto: por que não? Engana-se quem pensa que o futebol atual funciona no “Cada um pega um”. As funções em campo são predefinidas. Então MF era de fato o jogador para estar ali – ninguém coloca em xeque a disciplina tática alvinegra. Teria sido a melhor escolha? Não sei. E os que buscam a cabeça de Jair Ventura, me perdoem: também não é aqui que serão saciados. Ainda sobre o volante, é válido lembrar que Matheus Fernandes foi o homem que deu a principal característica ao meio-campo alvinegro – e sem ele talvez não houvesse quartas de final (muito provavelmente, não). Então está perdoado. Que faça o gol da classificação ano que vem.

O lance fatídico. Fazer o quê? Quem não faz, leva (Foto: Lucas Uebel/Grêmio/Divulgação)

O fato é que o Botafogo lutou. E desta vez perdemos para nossas próprias incapacidades.

O que deu errado: a importância do camisa 10

Lindoso é o responsável por iniciar a transição da defesa para o ataque com alguma qualidade; Matheus Fernandes é o homem da destruição, do trabalho sujo – que sabe jogar e tenta ser desafogo, mas acaba falhando miseravelmente nas finalizações; Bruno Silva é o jogador mais versátil, mais operário – rouba bola, cobre lateral, vira ponta, ataca.

E João Paulo? Ali está o responsável pela criação. Aqui está o erro. E não me entendam mal, não se trata de caça às bruxas – e sim de apontar onde perdemos o jogo. Explico.

Bem, onde o Grêmio deixou de perder o jogo (que, por consequência, é onde deixamos de ganhar) é fácil identificar: a saída de Leo Moura. Quem diria? O lateral que já foi um estorvo para nós, alvinegros, ontem era o “doce da galera”. Renato, o Portaluppi, da maneira mais carioca possível, tratou de tirar o jogador de campo ainda no primeiro tempo. Malandramente…

Agora, por que perdemos o jogo no “camisa 10”? Porque, na formação que utilizamos, precisa haver ali o jogador mais lúcido do time. O mais técnico. O mais criativo. O melhor. E não havia.

O que fazer? Muitos cornetaram Jair Ventura por não ter iniciado o jogo com Valencia no lugar de JP – inclusive este que vos fala. O fato é que Jair teria acertado (ou errado), fosse sua escolha João Paulo ou Valencia. Porque tanto faz. Nenhum deles mudaria o panorama do time na partida. E cada vez que o Botafogo sai atrás no placar, temos a certeza de que não temos este jogador no elenco. E mais: de que o time se desdobra para suprir a ausência deste homem. E na Arena não foi diferente.

Um exemplo. Valencia tem condições de jogar em duas posições: centralizado, à frente da linha dos volantes, ou como ponta-esquerda. “Tem condições”. O jogador à frente dos volantes precisar ter boa arrancada para puxar contra-ataques. O ponta-esquerda precisa ser, além de rápido, físico, para ajudar na recomposição. Valencia não é veloz e nem privilegiado fisicamente. Aonde cabe Valencia neste time?

O esfarrapado Botafogo

Este é o Botafogo – esfarrapado, remendado, que perdeu o principal jogador na metade do ano – e cujo segundo (Camilo) simplesmente havia parado de jogar. Um time que precisou refazer o planejamento de elenco e que se reforçou com as peças que encontrou no mercado – não com as ideais, nem com as melhores. Mas com quem servia bem. E mesmo assim, vinha dando certo por muito esforço e dedicação daqueles que aqui estão. Serviram bem. Até quarta-feira.

Enfim, sabemos que nosso camisa 10 tampouco é João Paulo – ou até mesmo Marcus Vinícius, que ainda se mostra fora de sintonia. Eles servem bem. Mas não podem ser a esperança do diferente. E não sou eu que estou inventando – o esquema pede essas características. Lembro ainda que este esquema foi o encontrado por Jair Ventura para reduzir o impacto da falta de talento individual do time. Antes de acertar, Jair reduz erros.

Mas por que João Paulo, que havia brilhado contra o Nacional em Montevidéu não poderia executar a função ontem? Porque o Nacional há muito não é um time que mete miedo em ninguém e o jogo exigia menos. O Grêmio está há anos-luz à frente.

Nosso enganche, como diriam os povos rio-pratenses, está aposentado. Se chama Walter Montillo.

As lesões não deixaram que Montillo se tornasse o que poderia ser com a camisa do Botafogo

WaMo poderia fazer a diferença. Parece que não era para ser (Foto: Vitor Silva/ SSPress)

No fim das contas, o resultado foi justo

Voltando especificamente ao jogo, ontem, o Botafogo perdeu para sua própria incapacidade. E não foi capacidade de se reinventar dentro de campo ou afobação – ainda que após o gol alguns tenham demonstrado descontrole. Incapacidade de criar. Afinal, nos últimos quatros jogos de mata-mata, o time não marcou gols.

E por que? Porque assim que tomamos o gol, começamos a rodar a bola no meio-de-campo. E a primeira imagem que me vem à cabeça é a de João Paulo dando um bico para cima. O homem da criatividade. Ali havia terminado o confronto.

No final da segunda partida das semifinais da Copa do Brasil contra o Flamengo, Carlos Eduardo Pereira, presidente do Botafogo, deu uma declaração afirmando que gostaria de ter peças melhores para alimentar o elenco de Jair Ventura. Bom, parece que CEP se antecipou – porque essa é a justificativa perfeita para a derrota contra o Grêmio. E aqui não há nenhum julgamento: entendemos perfeitamente a situação financeira do clube. E por isso mesmo, acredito que a eliminação tenha sido justa. Se passássemos, teria sido também.

O legado

Em pé: Gatito, Rabello, Lindoso, Roger, M. Fernandes

Máximo respeito aos homens que recolocaram o Botafogo onde deve estar (Foto: Loucos pelo Botafogo/Reprodução)

O Botafogo trabalhou. Suou e sangrou buscando seu lugar ao sol nesta Libertadores. A América presenciou o Botafogo voltar a ser o Glorioso na Libertadores: colocar medo em gigantes e exterminar adversários com certa facilidade.

O Botafogo de 2017 veio para mostrar que bicho-papão não existe. Veio para mostrar que o futebol hoje é outro. Carimbou a faixa de novos campeões e mostrou que algumas taças de Libertadores ficaram no passado – e não fazem a menor diferença quando os clubes se enfrentam. Nos colocamos como contenders para fazer estragos pela América. É necessário criar o hábito. E com muito suor, o resultado baterá à porta.

E o primeiro passo é juntar os farrapos. A batalha contra o Grêmio nós perdemos. Mas ainda há uma verdadeira guerra no Campeonato Brasileiro. E nós podemos, merecemos – e provavelmente conseguiremos novamente – a vaga na competição pelo campeonato nacional. O futebol que jogamos nos credencia à isso.

Saímos da Libertadores frustrados, claro, mas fortalecidos. Saímos com a certeza de que temos valores emergentes, como o GIGANTE Igor Rabello, o próprio Matheus Fernandes e o zagueiro Marcelo (que nos salvou de várias) – e de que esses caras estão aí para conduzir o clube de volta às glórias nas próximas temporadas. Fora de campo, tudo vai melhor do que o mais otimista torcedor do clube esperaria, graças à boa gestão do presidente Carlos Eduardo Pereira. Com os valores que temos e a organização (que sempre faltou ao Botafogo), temos motivos para otimismo – e olho que sou extremamente cético com relação à isso.

Estamos de volta! E que continuem duvidando, não tem problema. O Botafogo descobriu que bicho-papão não existe.

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Eduardo Ramos

Eduardo Ramos

Publicitário louco por esporte, em especial o bretão, e praticante de qualquer modalidade – não necessariamente bem. Defende a existência dos Estaduais, mas não levanta a bandeira contra o futebol moderno. Tentou fugir da tarefa de escrever sobre o clube de coração, mas o destino (vulgo necessidade) bateu na porta. Tenta enxergar o jogo por suas diversas nuances – visceral, cultural e mercadológica. Fala de si mesmo na 3ª pessoa. Jornalismo, qualquer dia tamo aí.



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