De onde menos se espera…

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O até então desconhecido Mike Perry foi um dos grandes destaques da noite de sábado no UFC Pittsburgh (Foto: Divulgação/UFC)

No UFC Pittsburgh o evento principal era Luke Rockhold vs. David Branch, que fizeram uma luta ruim; enquanto isso, os novatos agitaram a noite

O matchmaking nos eventos de MMA é um tanto complicado. O esporte é tão emocionante a ponto de ser completamente imprevisível. Há um ditado que diz “de onde menos se espera é de onde saem as melhores soluções”. E há uma piada em cima desse dele – que inclusive se tornou muito mais popular – que diz: “De onde menos se espera, é daí que não sai nada mesmo”. Nas artes marciais mistas, ambos os ditados são verdade. E ambos são mentira.

Calma, aquele que vos escreve não está ficando maluco. O que estou querendo dizer é: o MMA surpreende, às vezes positivamente, mas também negativamente. O fato de ser um esporte individual cujo objetivo é agredir o adversário o máximo possível – dentro das regras, é claro – adiciona dinâmicas pouco presentes em outros esportes. A performance e o bem-estar físicos, a proficiência técnica e tática, assim como o equilíbrio mental e psicológico – tudo depende de um único atleta. Em um combate, tudo sobressai: o bom trabalho, o mal trabalho, todos os medos e todas as angústias.

O imprevisível – mas às vezes previsível – mundo do MMA

E em meio a isso, a organização tem que casar lutas que prezem pelo espetáculo – e que façam sentido do ponto de vista da própria competição. É tentar prever o imprevisível, que por vezes se mostra previsível.

Por exemplo: poderíamos antecipar, conhecendo os estilos de luta e histórico recente de Rockhold e Branch, que os dois fariam uma luta ruim e limitada do ponto de vista técnico. Os dois são ex-campeões e poderiam surpreender, sim. Mas poderíamos prever que lutadores muito menos experientes – e sequer ranqueados – dos meio-médios fariam combates mais emocionantes, interessantes e técnicos?

Mas chega de papo, confira agora a análise da RISE Esportes dos destaques – positivos e negativos – do UFC Pittsburgh.

O mediano contra o limitado

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Dentro de suas limitações, David Branch conseguiu impor bastante pressão em Rockhold no início do combate (Foto: Divulgação/UFC)

O que se espera de uma luta entre um ex-campeão de eventos como o Strikeforce e do UFC, e um ex-campeão do extinto WSOF, que vinha em uma sequência de 11 vitórias seguidas? Bastante. Mas sendo eles, respectivamente, Luke Rockhold e David Branch, o que se espera?

Luke nunca foi um exímio lutador. A palavra certa para ele é mediano. Sua ascensão no Strikeforce só se deu porque o alto nível na divisão dos médios do MMA estava no UFC. E quando o lutador chegou ao Ultimate, esse nível já havia caído junto com Anderson Silva. A divisão não era mais o poço de talentos que contava com Forrest Griffin, Rich Franklin, Stephan Bonnar, Yushin Okami, Dan Henderson e o próprio Anderson no auge. Foi em cima desse cenário decadente que os também medianos Michael Bisping e Gegard Mousasi – que partiu para o Bellator há pouco – ascenderam.

Já sobre David Branch, é incrível sua sequência de vitórias no World Series Of Fighting. Mas ele nunca havia sido de fato testado. O WSOF fez um ótimo trabalho enquanto existiu, conseguindo construir, sem muitos recursos, bons campeões. E o UFC fez muito bem em agarrar boa parte destes nomes. David Branch, Justin Gaethje e Marlon Moraes agora defendem o legado da organização no Ultimate. Uma pena que Branch tenha se mostrado limitado no UFC. No entanto, é cruel já partir para o ataque ao WSOF: ter um campeão limitado em uma divisão que agora é mediana é até formidável, observadas as limitações da organização.

A luta: de onde menos se espera… é daí que não sai nada mesmo

Não há muito o que falar sobre o embate. Digo que Rockhold é mediano porque ele é como tantos outros lutadores de MMA: é bom em tudo, mas na realidade não é bom em nada – apenas mediano nas diversas disciplinas do esporte. E digo que Branch é limitado como artista marcial porque, apesar de ter mostrado qualidade na trocação, está abaixo da média nas outras áreas. Mesmo assim, suas habilidades quase foram suficientes para vencer o combate. E teriam sido, caso tivesse planejado melhor o seu jogo.

A luta começou com um atropelo de Branch, que encaixou vários socos e pôs Rockhold de costas para a grade. Parecia que David iria levar a luta, Luke estava em apuros. Mas foi aí que o ex-campeão do WSOF errou em sua estratégia.

O erro que definiu a luta

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A foto diz tudo. Que papelão…! (Foto: Reprodução/UFC)

Ao invés de manter a distância e apostar na trocação, Branch tentou, questionavelmente, a queda, e amarrou a luta na grade. O problema é que o lutador não tem qualidade e nem força para isso. Entendo que seu fôlego se exauriu rapidamente. Mas se você é um lutador e vai ficar sem energia antes do final do 2° round, faz mais sentido gastar essa energia com algo que ESTÁ DANDO CERTO.

O que se viu a partir de então foi uma luta fácil para Rockhold, que teve tempo para respirar e se recuperar. No 1° round já conseguiu a primeira queda, embora não tenha conseguido elaborá-la. Era apenas um ensaio. No 2°, Branch sofreu uma queda vergonhosa, não por ter sido uma baiana, mas pelo que veio depois – observe a foto acima. David parecia mais perdido que o fã que foi ver o show da Rihanna no Rock In Rio, mas teve que escutar Elton John antes. Cedeu a montada logo de início, as costas. Tudo em Branch gritava “eu não sei o que estou fazendo aqui no chão”. O juiz poderia ter parado a luta no momento em que ele caiu no chão, por pena, mas há pouco espaço para pena no MMA  ou no meu texto. David ainda levaria alguns golpes antes da interrupção.

Os meio-médios roubaram a cena

O main event decepcionou, como esperado. Mas lutadores desconhecidos e não-ranqueados dos meio-médios surgiram para salvar o evento. Te cuida, Tyron Woodley, seus dias de enrolação com o cinturão da categoria podem estar contados!

Mike “Platinum” Perry, um verdadeiro tanque de guerra

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O embate entre Mike Perry e Alex Reyes entregou toda a emoção que prometia (Foto: Divulgação/UFC)

Com 10 vitórias – todas por nocaute – e uma derrota antes do combate da noite passada, Mike “Platinum” Perry enfrentava o também relativamente desconhecido Alex Reyes, na divisão dos meio-médios. Este, assim como seu oponente, não gostava de ter suas lutas decididas pelos juízes. Após iniciar a carreira com 2 derrotas, vinha de sequência de 13 vitórias, sendo 9 por nocaute e 4 por finalização. Era promessa de uma luta emocionante, não importa para qual lado fosse.

Perry já iniciou o combate em ritmo alucinante. É o exemplo de sanguinário que todo fã quer ver lutar. Como um tanque de guerra, buscou passar por cima de Alex Reyes. Apesar de novato, Mike mostrou dominar muito bem tecnicamente o boxe e o muay thai. Reyes até que não ficou para trás no boxe, mas era nítido o quanto Perry se esquivava e golpeava melhor. E o muay thai de Mike foi o grande definidor do combate.

Como poucos, o “Platinum”, sempre que teve a chance, aplicou o famoso thai clinch. Mas por que isso é importante? Geralmente, em uma luta de MMA, o clinche vai com facilidade para o lado do wrestling, descendo do pescoço, para o resto do corpo. Quando nos damos conta, os dois lutadores já estão colados na grade disputando pegadas, amarrando a luta. Mas Perry conseguiu manter o clinche do pescoço para cima, exatamente onde foi treinado no muay thai para destruir seus oponentes. Reyes foi punido com duras joelhadas, inclusive colado à grade, até que sucumbiu após uma que acertou a sua cabeça. Tudo isso durou menos de 4 minutos.

Para quem gosta de uma boa briga

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O ritmo da luta entre Gregor Gillespie e Jason Gonzales foi extremamente intenso, do início ao fim (Foto:divulgação/UFC)

Existem lutas que são lutas – e lutas que são verdadeiras brigas. As lutas-lutas são excelentes disputas esportivas, técnicas, táticas, o ápice e toda a proficiência do esporte. As lutas-brigas são quase isso, mas o sangue ferve e a coisa perde o aspecto de algo polido e elaborado, socos e chutes voam para tudo quanto é lado em trocas loucas, bagunçadas e emaranhadas. São poucos os lutadores que conseguem manter o alto nível técnico e tático – grandes como Donald Cerrone já falharam ao tentar. Mas o novato Gregor “The Gift” Gillespie mostrou ter um gift nesse sentido.

Vindo de 9 vitórias seguidas, sendo 4 por nocaute e 3 por finalização, além de nenhuma derrota no cartel, Gregor não estava para conversa no UFC Pittsburgh. Seu oponente era Jason “Nicoya” Gonzales, que venceu 11 lutas, todas por nocaute ou finalização – e perdeu 4. O embate se deu na agora mais surpreendente categoria dos meio-médios.

Uma performance incrível e a cereja do bolo de Gregor Gillespie

Assim como Mike Perry viria a fazer mais tarde na noite de sábado, Gregor Gillespie também “encarnou” o tanque de guerra. Mas foi uma versão um pouco diferente. O atropelo do “The Gift” veio também pelo chão, não só pelo alto.

Foi incrível ritmo imposto por Gillespie, do início ao fim do combate. A mistura que o jovem fez da trocação com a luta agarrada, a loucura das trocas e quedas e ele ter conseguido manter alto nível técnico enquanto fazia tudo isso foram um espetáculo à parte. E ainda sobrou fôlego ao final da luta, o ritmo não caiu. Gonzales até acompanhou seu adversário, mas a partir de determinado momento estava atordoado demais para revidar à altura. Mesmo assim, foi uma resistência heroica. Perdeu, mas perdeu bonito!

A cereja do bolo para Gregor foi a finalização que aplicou, um katagatame direto da montada que deixou Deus, o diabo e os fãs de luta confusos até agora. A variação mais comum da submissão é feita a partir da posição dos 100kg, aplicando pressão no pescoço do adversário com o braço do lado oposto ao das pernas. A partir da montada, perde-se boa parte dessa pressão, e por isso Gillespie surpreendeu mais ainda.

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Um katagatame direto da montada. Isso não se vê todo dia! (Foto: reprodução/Fox Sports/UFC)

O UFC Pittsburgh mostra que há motivos para acreditar em um MMA melhor

Em um momento no MMA em que o desempenho de muitos atletas que deveriam ser de ponta é decepcionante – entre eles os ex-campeões que fizeram a luta principal -, Gregor Gillespie e Mike Perry são exemplos de que ainda há motivos para acreditar numa melhora do esporte. Nos últimos anos, vimos a queda e aposentadoria de muitos grandes nomes que estiveram no topo, foram campeões, elevaram o nível das artes marciais mistas durante muito tempo. São exemplos Anderson Silva, José Aldo, Renan Barão, Georges St. Pierre, Dan Henderson, Vitor Belfort, etc. Até mesmo Jon Jones. 

Estamos gradativamente perdendo nossas antigas referências, mas novos bons nomes já começaram a despontar: TJ Dillashaw, Kelvin Gastellum, Conor McGregor, Cody Garbrandt e Robert Whittaker são bons exemplos. No UFC Pittsburgh vimos que, com relação a talento na nova geração, ao menos com a divisão dos meio-médios não precisamos nos preocupar.

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Giovanni Pastore

Giovanni Pastore

Carioca, 22 anos, estudante de publicidade. Desiludido com o futebol e seus 90 minutos de aflição, comecei a explorar outras alternativas e assim me descobri apaixonado por esportes de combate. Gosto da reflexão sobre o seu papel social e também sobre os negócios que os rodeiam. Dentre eles, o MMA é meu favorito, o qual olho com muita admiração, mas sem perder o olhar critico. foto por: Pamella Kastrupp



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