Primeira Liga: da independência à piada

Primeira Liga: da independência à piada
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Primeira Liga definha sob os olhos de seus próprios idealizadores (Foto: Divulgação/Primeira Liga)

A Primeira Liga tinha tudo para ser o grito de independência dos clubes, mas é o reflexo da falta de união entre eles

Certa vez, em declaração ao jornal Zero Hora, tradicional periódico do Sul do país, Eduardo Tega, CEO da Universidade do Futebol, afirmou que a criação da liga foi um erro estratégico. Tega elogiou a tentativa de levante dos clubes contra a CBF, mas sugeriu que estes mesmos clubes necessitavam à época de uma associação que os unisse – e não de uma competição.

Se pararmos para refletir, isso parece realmente muito simples.

De qualquer forma, o anúncio da criação de uma liga organizada pelos clubes agitou o futebol brasileiro: animou os torcedores dos times participantes e deixou ressabiados os torcedores dos que ficaram de fora. Alguns clubes da Série B viram uma possibilidade de tornarem-se de “Série A” caso uma reviravolta ocorresse no cenário nacional e aderiram logo de cara à causa. Mas o maior trunfo da competição foi também sua ruína.

Sabe o que parece faltar à Primeira Liga? Capacidade de organização sem pender para lado algum. Vamos à uma rápida história. Era uma vez algumas pessoas geniais que abriram uma empresa. Todos os envolvidos tinham carreiras brilhantes, com ótimos prêmios em suas estantes. Semana vai, semana vem, e as coisas começam a degringolar – eles não estavam dando certo juntos. De repente, chegam à uma conclusão: precisam de um chefe. Contratam alguém para dar ordem em si mesmos. O trabalho fluiu e a empresa deu certo.

Sabe o que parece faltar à Primeira Liga? Capacidade de organização sem pender para lado algum. Os clubes precisam de alguém que lhes dê ordens. Não possuem capacidade para organizar um campeonato melhor do que o que está posto. Precisamos de uma Federação? Parece que sim, quer nós gostemos da ideia ou não.

Apresento agora o Jogos dos 7 Erros. Sete motivos pelos quais a Primeira Liga é um fracasso:

Erro número #1: a COPA da Primeira Liga

assembleia geral da primeira liga na sede da cbf

Assembleia Geral da Copa Sul-Minas-Rio, embrião da Primeira Liga, em 2015 (Foto: Divulgação/CBF)

A Primeira Liga do Brasil tornou-se Copa da Primeira Liga. Essa foi a a segunda afinada para a CBF. A primeira havia sido o início das tratativas para que a confederação desse o aval sobre a legalidade da competição. A inclusão da palavra “Copa” no nome do torneio retirou todo o afronte da alcunha. E para quê? Os dirigentes simplesmente abaixaram a cabeça.

Dentro disso, há também o próprio significado. Se a proposta é oferecer uma opção de liga mais justa e organizada e – conforme o passar do tempo – esvaziar o campeonato da CBF, é necessário criar uma fórmula de disputa em moldes semelhantes. Um copa esvaziaria uma copa. Não um campeonato de tiro longo.

Uma sugestão: pontos corridos. Treze clubes, número ímpar, um descansa por rodada. Seis jogos em casa e seis jogos fora para cada clube. Já que a Primeira Liga deveria ser uma prioridade, aumenta-se o número de jogos para doze – hoje o campeão joga 6 vezes. Não dá para criar um torneio e reclamar de calendário. Utilizem os reservas nos Estaduais. Levem a competição à sério. Isso é uma ameaça ao Campeonato Brasileiro.

Erro número #2: desentendimentos entre dirigentes antes do início do torneio

Em meados de 2015, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol era Marco Polo Del Nero. Envolvida em escândalos de corrupção e com a moral manchada, a instituição nada mais podia fazer do que aceitar a realização da então Copa Sul-Minas. O plano era incluí-la no calendário oficial. Em pé de guerra com a federação carioca (FERJ), a dupla Fla-Flu aderiu à competição e as coisas começaram a ficar mais sérias. Até que em uma mudança repentina de posicionamento, a CBF – influenciada pela FERJ – exigiu uma Assembleia Geral para definir as diretrizes da Primeira Liga . O fato irritou Alexandre Kalil, então diretor-executivo da Liga. O dirigente atleticano rompeu as conversas com a CBF à revelia de seus colegas, causando descontentamento – principalmente no cruzeirense Gilvan de Souza, que ameaçou retirar o time do certame. No final, Kalil saiu e o Cruzeiro voltou. Mas o climão já estava no ar.

É importante frisar que em nenhum outro momento na história o órgão regulador do futebol brasileiro esteve tão fragilizado e sem credibilidade. Uma estocada certeira poderia ter perfurado a couraça dos intocáveis coronéis do futebol brasileiro. Poderia. Mas os presidentes dos times não conseguiam olhar para além do próprio umbigo.

Erro número #3: cogitar uma competição nacional sem a presença majoritária dos grandes

Tradicionalmente, as maiores forças do futebol brasileiro reúnem-se em Minas, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. São doze os chamados grandes – mas apenas seis deles resolveram jogar a Primeira Liga. Lembra a regra da metade + 1? Pois é, construir uma competição de caráter nacional sem a presença majoritária das forças que fizeram do futebol brasileiro o que é hoje é um erro.

Erro este que poderia ter sido evitado caso a situação no Rio de Janeiro não tivesse se tornado uma batalha polarizada entre Fla/Flu e Botafogo/Vasco – que, na verdade, era apenas entre Flamengo e Vasco. Eurico Miranda, que politicamente sempre teve força na FERJ, constantemente “desfazia” da Primeira Liga – e chegou a reclamar publicamente da (i)legalidade do movimento. O Botafogo, que havia acabado de voltar da Série B – e era sério candidato ao descenso no Brasileiro -, não via condições propícias para atuar pela Liga. Além disso, o time já havia acertado o dinheiro das cotas de TV para o Campeonato Carioca. Portanto, o alvinegro carioca declinou o convite para jogar a copa – mas deixou as portas abertas. Resumindo, ficou em cima do muro e acabou sendo taxado de aliado de Vasco e da FERJ.

Hoje a cúpula da competição vê com bons olhos o ingresso de Botafogo e Vasco.

Erro número #4: insistir na competição sem os clubes paulistas

Enquanto este dossiê (risos) era produzido por este que vos fala e engavetado por falta de tempo para concluí-lo, o técnico do Fluminense, Abel Braga, destilou todo o seu conhecimento sobre futebol nas declarações pós-jogo. Na ocasião, o Time de Guerreiros (atual campeão) havia sido eliminado da Primeira Liga. Perguntado sobre a falta de representatividade do torneio, o treinador citou o Grêmio, que levou a deleção reserva (sim, DELEGAÇÃO) para a maioria das partidas – e disse acreditar que a falta de times paulistas retira a credibilidade do certame.

Mal sabia Abel que estava antecipando tendências.

abel braga tecnico do fluminense

“Sem times paulistas, Primeira Liga já nasceu e continua morta” – BRAGA, Abel.

Aqui acontece o inception do equívoco: o erro dentro do erro. Se não bastasse não ter o interesse majoritário dos clubes, a Primeira Liga não conta com os times paulistas. E a verdade é que os times de São Paulo são os mais vitoriosos do país, além de estarem muito bem colocados no ranking das torcidas.

Realizar uma competição de caráter nacional sem a adesão dos clubes paulistas é um tiro no pé. E as questões são meramente políticas aqui. Os clubes da região possuem boa relação com a Federação Paulista de Futebol – que por sua vez anda de mãos dadas com a CBF. É bom lembrar que os clubes de São Paulo recusaram veementemente participar da Primeira Liga e votaram em peso na candidatura do Coronel Nunes à presidência da Confederação Brasileira de Futebol. E não apenas eles. De qualquer forma, não vimos ninguém condenando os times paulistas por aí…

Erro número #5: acreditar no próprio discurso altruísta

O discurso de ajudar a alavancar o futebol brasileiro através de uma divisão mais igualitária dos recursos pode ser bonito. Mas é falso. Os únicos clubes que deram indícios um pouco mais críveis em importar-se com este tipo de questão são Atlético-PR e Coritiba, verdadeiros idealizadores da competição – e que já a abandonaram. E ações como as transmissão do Atletiba via streamming ajudam a corroborar a briga da dupla pela causa. O motivo para isso? Eles “vêm de baixo” – e de fato recebem valores ridículos da Federação Paranaense de Futebol.

Entretanto, o restante dos clubes considerados grandes deseja apenas eliminar o intermediário – que são as federações – na hora de negociar suas cotas. E não há nada de errado nisso, diga-se de passagem. Mas não conseguem se organizar de maneira eficiente para tornar um rompimento sustentável.

Se você, torcedor, acredita nesta baboseira da melhoria do futebol brasileiro porque meia-dúzia de clubes receberão mais grana de TV, você caiu no conto da alegria do povo.

Aliás, a questão-chave para que o campeonato degringolasse de vez foi, adivinhem, divisão das cotas. Bom, parece que, apesar das decisões questionáveis, Botafogo, Vasco e os times paulistas não estavam tão errados assim.
Cada um no seu canto.

Erro número #6: colocar a culpa do fracasso nos clubes que não aderiram

Alguns dirigentes tentaram jogar a culpa pelo mal andamento do campeonato nas costas dos rivais. Enquanto Gilvan de Souza, dirigente da Liga conversava com Botafogo e – pacientemente – com o Vasco de Eurico Miranda, o presidente Eduardo Bandeira de Mello creditou aos rivais a pecha de opositores da competição. O Fluminense olhava a situação de fora, sem meter os pés pelas mãos.

O fator primordial para o desentendimento é o posicionamento do Flamengo em tentar negociar uma cota maior para si próprio. E o fato não é algo novo – vem desde os primórdios da Liga. Mas o rubro-negro não está sozinho nessa. O próprio Alexandre Kalil, além de Mário Celso Petraglia, presidente do Atlético-PR, se posicionaram à favor do Flamengo. Enquanto isso, o Fluminense, liderado por Peter Siemsen na época, era e ainda é uma das frentes que defendem a divisão igualitária das cotas.

Isso explica muito da própria incompetência dos dirigentes dos clubes envolvidos na Liga. Se procurados para falar sobre a queda de interesse e visibilidade da competição, não são encontrados. Não aparece ninguém para falar dos números negativos de público e renda. Ninguém quer comentar a utilização dos reservas. Todos os dirigentes estão em reuniões. Filho feio não tem pai.

E aí precisa vir um treinador, como o inteligente Abel, à público apresentar sua opinião sobre o assunto. Opinião que os próprios dirigentes do campeonato compartilham. Quer dizer, eu espero que compartilhem. Quer dizer… será?

Erro número #7: times desfigurados e oportunidades perdidas para AFRONTAR

Este time é invenção. Mas poderia ser um time J do Grêmio na Primeira Liga (Foto: Reprodução/Sharemytatics.com)

Enquanto alguns vêm à público dar sua opinião sobre o insucesso do certame, outros não aparecem nem para jogar. É o caso do Grêmio do técnico Renato Portaluppi, que não leva mais sua delegação titular – e nem reserva – para os jogos. Por último, mas não menos importante, o máximo desprestígio à Liga.

Idealizada como um torneio mais competitivo – e de maior apelo do que os Estaduais -, a ideia da Primeira Liga era pegar o vácuo do sucesso da Copa do Nordeste e chancelar a competição. Talvez os dirigentes do eixo Sul-Sudeste devam fazer um curso com os cartolas dos clubes nordestinos – região que sempre foi subestimada e sub-representada nas competições nacionais, e que se uniu pelo bem do próprio futebol.

De grito de independência, a Primeira Liga se tornou uma piada. O próprio Flamengo, que tanto brigou pela realização da competição, acaba de ser eliminado utilizando time misto (não que isso tenha influenciado). Vale lembrar ainda que a dupla Fla-Flu fez a final do famigerado Campeonato Carioca da FERJ em 2017, depois de dois anos de hegemonia de Botafogo e Vasco. Era a chance perfeita para esvaziar a final do campeonato e demonstrar força. Imaginem os dois clubes mais vitoriosos da competição disputando a final com equipes completamente reservas! Mas… ambos entraram com as equipes titulares. Não por respeito à FERJ, mas por causa dos direitos de transmissão de TV. E mais uma vez, perdeu-se uma oportunidade.

Bônus: discursos prontos que os torcedores dos clubes na Primeira Liga precisam parar de repetir por aí para não passarem vergonha

“Ainda bem que meu time não depende de Estadual para viver”

O seu time parou de jogar o Estadual? Não. E esperemos que continue desta forma, já que o Estadual é critério de classificação para competições como a Copa do Brasil e a Série D do Campeonato Brasileiro. Parar de jogar os Estaduais pode trazer muita dor de cabeça. Aliás, se o seu time está na Primeira Liga, utilizou titulares durante o campeonato regional, votou no Coronel Nunes (sim, isso aconteceu, pesquisem) e está “textando jogadores” (EM SETEMBRO) na competição mais disruptiva dos últimos anos, você devia ter vergonha de dizer isso por aí.

“Os Estaduais incham o calendário”

Claro, e uma competição como a Primeira Liga, faz bem para o calendário.

“O RISE Esportes FC está fechado com a FFNE (Federação de Futebol que não Existe)

É um argumento seletivo. Como já citado, não houve atrito com os times paulistas – que declinaram a participação. Pau que dá em Chico, mas não dá em Francisco. Movimentos como o do Atletiba transmitido via streammig pelos dois envolvidos foram, até aqui, muito mais úteis para desafiar o poderio das federações, por exemplo.


A saída está nos doze grandes?

Qualquer movimento de rompimento com o status quo deve ser conduzido de baixo para cima. A base da pirâmide sempre carrega a maioria – que, no caso, são os clubes médios e pequenos. “Ora, os doze grandes não aceitarão algo que os coloquem em igualdade de condições”. Então que joguem entre si – e sustentem seu campeonato com 12 clubes. Enquanto isso, as forças de fora do eixo, como Atlético-PR, Avaí, Bahia, Ceará, Chapecoense, Coritiba, Fortaleza, Figueirense, Juventude, Náutico, Paraná, Santa Cruz, Sport, Vitória podem muito bem se virar sozinhas. É tudo questão de boa vontade, organização e marketing. Não duvidem dos clubes menores. O Brasil é um país muito grande e a Copa do Nordeste – que já apresenta fases classificatórias para entrar nos grupos – é a prova viva da nossa capacidade de fazer certo. A Copa da Primeira Liga não.

Possíveis Soluções

Não é tão difícil de reunir clubes com tradição – e que são esquecidos pelos “irmãos maiores” na hora da partilha. Por que não criar uma grande liga, semelhante à MLS ou NFL? Um campeonato com 24 ou 32 clubes, por exemplo, divididos por setores, que se enfrentarão até chegarem às semifinais e finais? Um campeonato brasileiro real e alternativo. É uma ideia que pode servir tanto à Copa do Nordeste, declarando sua merecida independência do Brasil – quanto à Primeira Liga.


A verdade é que os times brasileiros são uma grande contradição. E à exemplo da Copa João Havelange de 2000, organizado pelos próprios interessados, as soluções parecem fadadas ao fracasso. É de chances perdidas, contradições e incompetência que vive o futebol brasileiro.

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Eduardo Ramos

Eduardo Ramos

Publicitário louco por esporte, em especial o bretão, e praticante de qualquer modalidade - não necessariamente bem. Defende a existência dos Estaduais, mas não levanta a bandeira contra o futebol moderno. Tentou fugir da tarefa de escrever sobre o clube de coração, mas o destino (vulgo necessidade) bateu na porta. Tenta enxergar o jogo por suas diversas nuances - visceral, cultural e mercadológica. Fala de si mesmo na 3ª pessoa. Jornalismo, qualquer dia tamo aí.



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