Seleção: Tite está acima das críticas?

Seleção: Tite está acima das críticas?
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Você diria não à este homem? (Foto: Lucas Figueiredo/MoWa Press)

As escolhas de Tite parecem sempre dar certo, mas algumas soam gritantes; afinal, os convocados são os preferidos do técnico ou os melhores?

Tite é um gênio. Um gênio comparável à Pep Guardiola, Diego Simeone, José Mourinho e Carlo Ancelotti. Adenor possui sensibilidade ímpar para perceber as situações de jogo, assim como os nomes supracitados. Entende o atleta, entende o jogo, entende os bastidores, mas não sabe tudo. E a humildade para admitir isso é o que o coloca entre os melhores, afinal, está sempre se aperfeiçoando. E, bom para nós, não parecemos estar vendo o seu limite.

Nunca alguém foi tão bem no cargo de técnico da Seleção Brasileira quanto vemos hoje. Há uma espécie de “toque de Midas” em Tite. Tudo o que o treinador põe a mão, vira ouro. Poderíamos continuar listando os diversos feitos de Adenor em pouco tempo de casa, mas já conseguimos concluir que o treinador é uma quebra de paradigma no futebol brasileiro.

Tite está acima das críticas?

Entretanto, existe algo nas ações de Tite que não difere em nada das dos outros técnicos que tivemos: a convocação. Ah, a convocação! O momento que une os amantes da bola em detração ao comandante do escrete nacional! É claro que é difícil haver consenso em 23 convocados. Mas, de fato, algumas das escolhas de Tite escapam muito das opções mais evidentes.

E aqui entram as duas perguntas do início do texto: a boa fase do treinador, em que qualquer decisão por mais esdrúxula que seja tem resultados efetivos, deixa Tite acima das críticas? E há uma segunda pergunta, que se desdobra em uma discussão maior: quem são os convocados da Seleção Brasileira, os preferidos do técnico ou melhores de cada posição?

A convocação

Livre de obrigações para com as Eliminatórias e sem o ônus de desfalcar um time brasileiro em fases derradeiras de competições (a CBF agora respeita as datas FIFA!), Adenor tem à disposição força total. Ou o que o treinador pensa ser força total. Naturalmente, é previsível que o time vá à campo modificado nos jogos contra Equador e Colômbia (com cobertura da RISE Esportes no Twitter, é bom frisar).

É possível vermos jornais e programas de TV criticando a não convocação de Fulano – e considerando as de Sicrano e Beltrano infundadas. A verdade é que os jogos contra La Tricolor e Los Cafeteros servem apenas para manter a regularidade de atuações da Seleção. E talvez descobrir algum jogador que seja polivalente o suficiente para cobrir uma função que ainda tenha alguém contestado como opção.

taison brasil x australia

Você pode substituir Fulano, Sicrano e Beltrano por Vanderlei, Taison e Rodrigo Caio, por exemplo (Foto: Reuters)

A Seleção Brasileira tem iniciado as partidas no esquema 4-1-4-1 (que, olha que legal, vocês também podem chamar 4-5-1 ou 4-3-3!). Os 11 titulares são: Alisson; Daniel Alves, Miranda, Marquinhos e Marcelo; Casemiro, Paulinho e Renato Augusto; Coutinho, Gabriel Jesus e Neymar.

Algumas figuras carimbadas nas convocações – e que parecem não correr nenhum risco de deixar o elenco – são Thiago Silva, Filipe Luís, Fernandinho e Giuliano.

Algumas excentricidades

O time titular de Tite já comporta situações um tanto quanto excêntricas. A primeira é o goleiro Alisson. Sairei em defesa do comandante aqui – essa situação foi “herdada”. Veja bem, ninguém está discutindo a qualidade de Alisson. Mas, apesar da má fase, Diego Alves era um goleiro que já chamava atenção antes de Alisson aparecer. Ederson, ex-Benfica e agora no City, e Vanderlei, no Santos, atuaram por mais tempo e foram dominantes em seus times durante a temporada passada. Enquanto isso, o titular da Seleção revezava a titularidade da Roma com Szczesny. Talvez Tite não queira cometer com ele a mesma injustiça que Dunga e Taffarel cometeram com Jefferson quando o barraram.

Outra opção que causa alguma controvérsia é… Renato Augusto (eu JAMAIS citaria Paulinho, amigos), apesar de sua indiscutível qualidade técnica. Fabinho fez uma temporada sensacional pelo Monaco e pede passagem, mas ainda não foi testado. E com o advento do menino Couto, que começaria a temporada jogando não na ponta, mas por dentro no Liverpool, a seleção poderia muito bem ter Coutinho na vaga de Renato Augusto – e William ou Giuliano atacando pela direita.

Phillipe Coutinho, sem jogar na temporada, ficará como opção no banco de reservas. William será o escolhido para começar a partida. É bom lembramos que em um dos últimos amistosos da seleção, contra a Austrália, Coutinho jogou como meia por dentro e Giuliano pela ponta. E ambos foram muito bem.

Escolhas esdrúxulas Falta de critério?

Um nome muito contestado pela torcida brasileira é o de Fagner. Outro nome em pauta, e já convocado por Adenor, é o de Rafinha, do Bayern de Munique. Certamente Rafinha ser peça importante na Baviera e Fagner não ter dado certo no Wolfsburg diz alguma coisa. Mas pergunto: Rafinha joga mais bola que Fagner a ponto de Tite ser chamado de clubista por sua convocação? Rafinha enfrenta, em média, mais jogos difíceis por ano do que o lateral corintiano? Estamos sendo justos aqui?

Outro nome contestadíssimo na Seleção é o de Rodrigo Caio. Como alguém convoca um jogador de defesa cujo time está na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro? Pois é, dá pra entender o falatório. E mais: Jemerson também fez uma excelente temporada com a camisa do Monaco. E ainda assim, está disputando vaga com Rodrigo Caio e Gil. Bom, com essas críticas Tite precisa conviver. E explicar.

Agora, saio em defesa de Rodrigo Caio: o jogador cresce com a camisa da Seleção. Sempre que esteve em campo com o time principal, foi seguro e jogou toda a bola que está deixando de mostrar no São Paulo. Aliás, será mesmo que está deixando de mostrar? Pergunte ao torcedor do Tricolor se ele prefere o zagueiro no banco…

rodrigo caio marcando fagner pelo campeonato paulista

A rivalidade tirou o foco do fato mais estranho desta convocação de Tite (Foto: Thiago Bernardes/Framephoto/Estadão Conteúdo)

Um capítulo à parte é a convocação de Rodriguinho nos últimos amistosos. O problema, como sempre não é convocar o jogador X. É deixar de convocar o Y, que está jogando muito melhor. Tipo o próprio Fabinho.

E agora, a mais intrigante de todas as escolhas de Tite: o atacante Taison.

Mas essa escolha merece uma análise completa.

Goleiros, zagueiros e laterais

Goleiro não é função: é posição. Não tem o que mexer. Os convocados são aqueles e pronto. A dupla de zaga também não muda. O cara é zagueiro. Se Tite resolver testar 3 zagueiros, ele terá dois jogadores rápidos para sair pelas pontas, como Marquinhos e Rodrigo Caio – e até mesmo Thiago Silva e Miranda (esse um pouco menos), que nunca foram jogadores lentos. E ainda sobrará um nome no banco.

Com a qualidade técnica dos nossos zagueiros, os laterais não seriam adaptados na zaga numa possível formação com 3 zagueiros. Então jogariam como laterais ou alas mesmo. Destros na direita, canhotos na esquerda. Tudo normal.

Volantes e meias

Casemiro é titular absoluto na primeira posição do meio-campo. Fernandinho segue como opção. É interessante lembrar que David Luiz, quando convocado, jogou na posição de cabeça-de-área (ou primeiro volante, como queiram). Está aí um forte indício de que a posição está resolvida.

Aqui temos algumas possibilidades. Paulinho e Renato Augusto são os meias titulares da seleção. E Giuliano parece peça certa na reposição. Se Coutinho jogasse por dentro, na vaga de Renato Augusto, por exemplo, e Giuliano na ponta-direita, como já foi testado, seria um jogador por outro. Mas ainda há uma vaga de meia em aberto aqui.

E com a convocação de Luan – apesar do jogador atuar sem responsabilidade de marcação no Grêmio – a vaga foi suprida. Luan também pode jogar em uma posição que “não existe” no esquema de Tite: o 10 clássico (ou ponta-de-lança, ê saudade!), o que dá opção para uma mudança no esquema durante os jogos. O jogador ainda tem potencial para ser o reserva de Neymar.

luan comemora gol contra a dinamarca nas olimpiadas

Luan pode ser um achado para a seleção principal (Foto: NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)


Pontas e atacante

Coutinho pela direita e Neymar pela esquerda. Titulares absolutos. William pela direita e Douglas Costa pela esquerda, se tudo ocorrer normalmente.

Será que a convocação de Taison (ou Luan) não é o que está tirando Fabinho da seleção? Coloco Luan aqui apenas porque é o nome novo. Mas Luan merece.

Sabemos que os treinadores da Seleção Brasileira tem um carinho todo especial por Douglas Costa mesmo que não jogue nada e acreditam que o jogador pode substituir Neymar em caso de emergência. É bem possível que a convocação final para a Copa de Rússia funcione assim:

:: Se Douglas Costa mal: Luan na ponta-esquerda, Fabinho no meio e Douglas cortado.
:: Se Douglas Costa bem: Luan no meio; Douglas na ponta-esquerda e Fabinho cortado.

Com Gabriel Jesus na frente e Firmino como sombra, ONDE ENTRA TAISON?

Nomes que correm por fora, como Lucas Lima, que pode atuar tanto aberto como por dentro, e o próprio Luan precisam estar na frente de Taison. E até o próprio Diego Souza que, quando entrou, fez mais pela seleção.

Considerações

Alguns nomes que eu gostaria de ver com mais frequência nas convocações são os de Jemerson, Fabinho e Alex Sandro. Depois de Miranda, Thiago e Silva e Marquinhos, não há zagueiro brasileiro jogando melhor do que Jemerson. Se nenhuma atrocidade ocorrer, vai ficar com a vaga que está sobrando. Fabinho já deveria ter sido aproveitado e – se tudo correr dentro da normalidade – também precisa estar no elenco da Copa de 2018. A situação de Alex Sandro é mais complicada. Mais técnico e mais agudo do que o concorrente Filipe Luís, o lateral da Juve mostrou algum nervosismo quando foi testado na seleção brasileira. E por questão de equilíbrio do elenco, Filipe tem vantagem por ser mais marcador.

Tite é unanimidade, mas…

Solucionando a primeira pergunta: não, os 99,9% de acerto, não deixam Tite acima das críticas. Hoje, ele é, de certo, unanimidade: está no primeiro escalão de técnicos do mundo. E se comparado aos técnicos brasileiros, apareceria também bem acima dos demais. Mas ainda assim é possível achar incongruências na convocação.

É necessário termos discernimento suficiente para entender onde a convocação é uma aposta, onde é implicância nossa, onde é gosto pessoal e onde a escolha realmente não se justifica. Grande parte dos melhores estão aí – não todos, mas talvez seja questão de tempo até estarem. De qualquer forma, existem preferências. Sobre a segunda questão, é melhor deixarmos em aberto…

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Eduardo Ramos

Eduardo Ramos

Publicitário louco por esporte, em especial o bretão, e praticante de qualquer modalidade - não necessariamente bem. Defende a existência dos Estaduais, mas não levanta a bandeira contra o futebol moderno. Tentou fugir da tarefa de escrever sobre o clube de coração, mas o destino (vulgo necessidade) bateu na porta. Tenta enxergar o jogo por suas diversas nuances - visceral, cultural e mercadológica. Fala de si mesmo na 3ª pessoa. Jornalismo, qualquer dia tamo aí.



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