Porque não devemos crucificar Jon Jones (ainda)

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Depois da reconquista do título dos meio-pesados, Jon Jones chorou porque achou que seus problemas tinham acabado. Estava enganado. Infelizmente, o lutador seria pego no antidoping novamente (Foto: reprodução/Canal Combate)

Jon Jones falhou no teste antidoping no dia anterior à luta contra Cormier. No entanto, o processo ainda está em andamento e circunstâncias estranhas indicam que, apesar do histórico desfavorável, ele ainda merece o benefício da dúvida

Após o final do UFC 214, parecia que a vida de Jon “Bones” Jones estava voltando aos eixos. O melhor lutador de MMA de todos os tempos havia recuperado o seu cinturão com uma performance incrível e um momento de redenção emocionante. Na conferência de imprensa pós-luta, Jones chegou a dizer que não prometeria que seria um santo, porque no fim das contas ele ainda era o catiço um wild motherfucker. Mas o sentimento geral é de que não ficaríamos muito tempo sem ver Jones de volta ao octógono.

Até que, na terça-feira dessa semana, menos de um mês depois, foi revelado o resultado de seu teste antidoping do combate contra Daniel Cormier. Jones testou positivo para o esteroide anabolizante Turinabol.

Com base em seu histórico de abusos e polêmicas, é fácil culpar Bones Jones logo de cara. Mas as circunstâncias deste resultado específico parecem um tanto estranhas e inconsistentes. Como o processo de julgamento ainda está em andamento, revisitemos as polêmicas envolvendo o atleta e ponderemos alguns fatos. Leia os motivos pelos quais o campeão dos meio-pesados do UFC ainda merece o benefício da dúvida.

Jones passou em 7 testes aleatórios antes da luta, mas falhou justamente naquele que sabia que iria acontecer

Imagine que você está na escola. No decorrer de um semestre, você será submetido a alguns testes surpresa e a um último, que tem data e hora marcados. Nesse período, você não estudou para nenhum dos testes surpresa, mas passou em todos sem colar, sendo os últimos dois nos dias 6 e 7 de julho. Então você começou estudar para o teste marcado, que ocorreria no dia 28 de julho. No entanto, mesmo tendo ido tão bem nos anteriores e estando muito bem preparado para uma avaliação que não difere muito (precisaríamos entrar em questões técnicas) das outras, você decide colar. Três semanas depois, é descoberto. Qual aluno em sã consciência tomaria essa decisão?

É exatamente a situação em que se encontra Jon Jones – mas com exames de sangue da Comissão Atlética da Califórnia, e não testes escolares. E isso torna a situação ainda mais intrigante.

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Jones falhou no teste feito logo após a pesagem para a luta contra Daniel Cormier (Foto: MMA Weekly)

Turinabol – a substância detectada

A substância proibida encontrada foi o Turinabol, um esteroide anabolizante androgênico baseado em uma derivação da testosterona. Segundo o confiável blog estrangeiro Bloody Elbow, especializado em MMA, a droga foi muito utilizada pelos times olímpicos da Alemanha Oriental entre as décadas de 60 e 80.

O Turinabol teria voltado “à moda” há mais ou menos uma década – o que motivou o desenvolvimento de um sistema melhor de teste. A nova prova detecta um metabólito da substância que fica por bastante tempo no organismo, podendo acusar o positivo semanas ou até meses após a ingestão do Turinabol. Ainda segundo o Bloody Elbow, o teste não era feito em muitos laboratórios certificados pela WADA (Agência Mundial de Antidoping), mas nos últimos anos quase todos passaram a adotá-lo.

O Turinabol já apareceu indevidamente em muitos suplementos, especialmente nos últimos 2 anos. A lista de alto risco de suplementos contaminados da USADA (Agência de Antidoping dos Estados Unidos) cita pelo menos 7 suplementos que contêm Turinabol – ou que pelo menos o citam em seu rótulo. Podemos concluir que, se há uma lista extensa, a contaminação de suplementos e remédios é uma realidade. E já aconteceu com alguns lutadores dentro do UFC, inclusive com o próprio Jon Jones, que ingeriu um estimulante sexual contaminado.

Quanto mais se explora o caso, mais parece plausível a hipótese de que Jones tomou um suplemento ou medicamento contaminado. O contrário, observadas as circunstâncias, pode ser verdade – mas é pouco verossímil. Jones seria pego com uma substância que deixa rastro por semanas ou até meses. É quase como se ele quisesse ser pego.

Jon Jones teve sua parcela de culpa em muitas das polêmicas pelas quais esteve envolvido – mas nem tanto assim

Nos últimos 3 anos, um furacão passou pela vida de Jones. Um furacão criado por ele mesmo, mas que teve ajuda de fatores ventos “externos”.

O polêmico episódio da cocaína

A ajuda de tais ventos externos veio logo em seu primeiro grande escândalo, também relacionado a testes anti-doping. Mais ou menos um mês antes de seu primeiro embate contra Daniel Cormier, Jones testou positivo para cocaína. O fato em si não representava uma infração frente às agências antidoping. A verdade é que Jon foi testado para uma substância que não deveria ter sido: drogas recreativas não são proibidas “fora de competição” – ou seja, fora da semana da luta.

A Comissão Atlética de Nevada, responsável pelo teste, admitiu depois o erro em uma nota. Estranho que Jones tenha sido “pego” justamente no único teste em que houve esse erro. Não houve por parte das comissões atléticas nenhuma sanção, mas Jones foi multado pelo UFC por violação do seu código de conduta. Sua imagem seria manchada para sempre. E uma nota não foi suficiente para retratar a injustiça.

O desacato à uma autoridade racista: foi justa a punição?

Outro momento em que os ventos externos adicionaram fôlego ao furacão de Jon Jones foi quando o atleta foi julgado e condenado à liberdade condicional por desacato à autoridade. No episódio que deu origem ao desrespeito, Jones foi parado por um policial enquanto dirigia à noite. O motivo: a estranha suspeita de ter tomado parte em um racha que supostamente havia ocorrido na região. O estranho no caso é que não havia nenhum indício. Jon Jones já sabia do que se tratava a situação: nos EUA, afro-americanos são constantemente alvos de abordagens policiais sem nenhuma evidência ou suspeita, apenas por serem negros.

O problema é que Jones se destemperou diante do fato e cometeu – sim – o desacato. Após o ocorrido, investigações indicaram que o policial que abordou o lutador já havia se envolvido em episódios de racismo. Parece absurdo que Jones tenha sido punido por desacato diante de uma abordagem racista. Mas foi o que aconteceu.

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O policial conseguiu o que queria: um vídeo de um destemperado Jon Jones (Foto: Reprodução/Depto. de Polícia de Albuquerque)


O benefício da dúvida

Apesar de ter dito que no fim das contas ainda é um wild motherfucker, uma espécie de mea-culpa à sua maneira com relação aos erros do passado, Jon Jones ainda merece o benefício da dúvida. Menos por quem ele é – e mais pelas questões externas: as circunstâncias estranhas do caso de antidoping, as evidências que indicam um nível significativo de contaminação por remédios/suplementos com substâncias proibidas e pela incitação ao desacato, oriunda de uma questão racial.

Jones testou positivo, por enquanto, apenas na amostra A. Já a B, uma espécie de “prova real” extraída na mesma ocasião da A, deve ter seu resultado revelado dentro de 2 ou 3 semanas. No julgamento do caso, Jones ainda pode se defender e apresentar provas de que não ingeriu a substância – ou ao menos que o fez sem o conhecimento. Até o veredicto final, ele é inocente até que se prove o contrário.

Negro, rico e melhor lutador de MMA de todos os tempos, incontestavelmente Jon “Bones” Jones chama muita atenção – e é marcado de perto pelos “zagueiros” da vida. Toda vez em que o campeão do UFC quiser errar, vai haver sempre alguém em volta disposto à ajudá-lo. E pelas mesmas questões do início do parágrafo, vai haver muito mais gente para criticá-lo.

Por isso, vamos esperar um pouco antes de crucificar Jon Jones. Se for considerado culpado, sem nenhuma ressalva, o mais provável é que pegue a pena máxima de 4 anos. Então teremos bastante tempo para falar mal dele.

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Giovanni Pastore

Giovanni Pastore

Carioca, 22 anos, estudante de publicidade. Desiludido com o futebol e seus 90 minutos de aflição, comecei a explorar outras alternativas e assim me descobri apaixonado por esportes de combate. Gosto da reflexão sobre o seu papel social e também sobre os negócios que os rodeiam. Dentre eles, o MMA é meu favorito, o qual olho com muita admiração, mas sem perder o olhar critico.
foto por: Pamella Kastrupp



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