Botafogo x Flamengo: é preciso ler nas entrelinhas

Botafogo x Flamengo: é preciso ler nas entrelinhas
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Diego teve a melhor chance do jogo, mas esbarrou na trave (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo).

Ao final de Botafogo x Flamengo, Diego e Victor Luís deram declarações diferentes, mas compartilhavam do mesmo sentimento: dever cumprido

Poucas emoções. Assim pode ser definida a partida de ontem entre Botafogo e Flamengo pela Copa do Brasil. Nilton Santos, casa do Botafogo. Favoritismo também alvinegro, dizia a imprensa. Mas isso só serve caso você acredite que favoritismo existe em clássico. No entanto, poucos no debate esportivo discutiram sobre uma parte crucial da história: o jogo seria uma incógnita.

Para cair a ficha do que aconteceu ontem foi preciso ler nas entrelinhas. E a confirmação do que estava acontecendo só se deu após soar o apito final. Os repórteres de campo foram entrevistar os jogadores de ambos os times, e um consenso ali imperava: sensação de dever cumprido. “Como assim?” – você pensa. Não aconteceu nada no jogo. Pois é, e este era exatamente o objetivo dos times ontem no Estádio Nilton Santos: deixar para depois. Quanto menos acontecesse, melhor. Estratégia de Jair Ventura. Estratégia de Reinaldo Rueda. E muito bem formulada.

E não se enganem, a bola na trave de Diego foi mero acaso. O famoso se rolar, rolou.

Botafogo

Nas redes sociais e grupos de Whatsapp – dos quais este que vos fala faz parte – uma onda de desânimo tomou conta ao final do primeiro tempo. O Botafogo, tecnicamente, apresentava pouco – ou nada, para ser mais exato. E a marcação – atípica, frouxa – enganava os pessimistas torcedores que vestem preto e branco. “Não entraram pilhados como das outras vezes”, afirmaram. “Contra o Flamengo os caras somem”, disseram. Não é verdade. O resultado da partida de ontem foi exatamente como Jair Ventura e os jogadores esperavam.

Mas um time em melhor fase não deveria ter apresentado melhor futebol? Sim. E foi essa a decepção dos torcedores. Claro, ninguém espera que seu goleiro solte uma bola no pé do atacante adversário; também não acha que seu ponta errará o domínio na hora de puxar o contra-ataque; e também não orienta seu lateral a chuveirar todas as bolas na área. No entanto, o Botafogo alcançou seu objetivo ontem: não sofrer gols.

Não lhes parece estranho um time forjado na arte do contra-golpe não ter subido ao ataque em velocidade nenhuma vez? Pois é. Não lhes parece estranho que um meio-campo com três dos melhores volantes do país – ou quatro, como quiserem – não tenha incomodado Cuéllar e Arão, responsáveis pela saída de bola rubro-negra, em momento nenhum?

A primeira vez de Rueda pelo Flamengo foi ontem. O treinador colombiano conhecia mais o adversário do que O Mais Querido. As ações do Flamengo em campo seriam uma total incógnita. E Jair Ventura não gosta de surpresas. Entre dar um bom espetáculo e ser surpreendido, a escolha foi clara: adiar a decisão para o segundo jogo. Furou a bola. Estratégia.

Flamengo

O Botafogo é um time traiçoeiro, que se finge de morto e se alimenta das falhas do adversário. Reinaldo Rueda não teve tempo de treinar o time. Mas já sentiu na pele a maldade do Glorioso. Portanto, não teve dúvidas: para levar o Flamengo em segurança ao segundo jogo, era necessário passar os 90 minutos inicias sem levar gol. Rueda deveria eliminar qualquer tipo de fragilidade. E como sabemos que Trauco não existe defensivamente não tem a recomposição como ponto forte e Pará – depois de Pará perder na corrida para Jô – não é muito confiável, parecia bem evidente que o time precisaria de mais estabilidade.

Peças trocadas, laterais mais fixadas. Bruno Silva e Rodrigo Pimpão vigiados mais de perto não que tenham jogado um futebol que merecesse qualquer preocupação, os flancos se fecharam para contra-ataques. Aliado isso à escalação de Cuéllar ao lado de William Arão, dois jogadores que tem boa técnica e sabem marcar, o Flamengo equilibrou qualidade e dedicação defensiva.

Então o Flamengo passou a propor o jogo, dentro de sua característica, mas de maneira preguiçosa. Berrío correu bastante de um lado. Éverton correu bastante de outro. Mas Luís Ricardo e Bruno Silva seguraram bem o ponta daquele lado e Victor Luís também fez belo duelo com o colombiano no flanco oposto.

Alguns pontos foram importantes para o Flamengo. A falta de peças ontem ficou bem evidenciada na substituição dos laterais. E com isso, falhas no planejamento. Vou falar baixinho, mas se os laterais do Flamengo fossem Luís Ricardo e Victor Luís, fatalmente (alô, Maestro Júnior) a torcida do Fla seria mais feliz. Outra questão: não há dúvida de que Cuélão forma a melhor dupla de volantes possível para o Mengão no momento. Um futebol de alto nível já não aceita mais o meio-campista que toca de lado. Mas cá entre nós, com a liberdade de ontem, Márcio Araújo também consegue jogar. Exceção? Exceção. Mas verdade.

E por último, mas não menos importante: o jogo de Diego melhora quando tem Berrío pela direita. Obviamente, Éverton Ribeiro é um jogador mais técnico. Mas a característica do canhoto que joga pela direita é puxar sempre para dentro. E muitas vezes, Diego fica sem espaço para trabalhar – porque Diego não é o jogador que irá cair pela ponta direita. Além disso, Berrío tem gás infinito para voltar e ajudar na marcação – e evita a escadinha de problemas que nós falamos nessa comparação Diego x João Paulo. A entrada de um lateral mais seguro defensivamente também evita que Diego tenha de cobrir os flancos. Ou seja, o craque fica desobrigado de fazer duas funções que não sabe e pode se concentrar em fazer o dele. Cabe ao Flamengo resolver para quem o time vai jogar.

botafogo x flamengo

Roger posando para a foto. Sim, porque o Botafogo não incomodou o Flamengo ontem (Foto: Vitor Silva/SS Pres/Botafogo).

Bom, nunca é um jogo tão interessante quando duas equipes entram com o objetivo de não sofrer gols. Nos dá a impressão de que perdemos algum tempo de nossas vidas e que os técnicos e jogadores ficaram rindo de nós no vestiário. Também há de se questionar se isso é de fato o melhor para o futebol. De qualquer forma, a disciplina para seguir o combinado foi impecável nas duas equipes. Sintomas de novos tempos.

Necessário pontuar: apesar das expulsões de Alex Muralha e Joel Carli – exageradas, por sinal – e de algumas entradas mais duras, a lealdade e o respeito prevaleceram em campo entre botafoguenses e flamenguistas. O maior exemplo de civilidade veio de dentro das quatro linhas. Que as diretorias aprendam com seus próprios atletas como se portar. E que a imprensa não jogue gasolina em fogo.

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Eduardo Ramos

Eduardo Ramos

Publicitário louco por esporte, em especial o bretão, e praticante de qualquer modalidade - não necessariamente bem. Defende a existência dos Estaduais, mas não levanta a bandeira contra o futebol moderno. Tentou fugir da tarefa de escrever sobre o clube de coração, mas o destino (vulgo necessidade) bateu na porta. Tenta enxergar o jogo por suas diversas nuances - visceral, cultural e mercadológica. Fala de si mesmo na 3ª pessoa. Jornalismo, qualquer dia tamo aí.



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