Finalmente, o divórcio

Finalmente, o divórcio

Zé Ricardo fez muito pelo Flamengo, mas o futebol cobra. Chegou a hora de ir embora. (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)

O fim de um relacionamento nunca é positivo. Mas, em alguns casos, o divórcio é a melhor alternativa.

Depois de um 1 ano e meio cheio de altos e baixos, o maior desejo da torcida rubro-negra se tornou realidade. O Flamengo anunciou na noite do último domingo (6) a demissão de Zé Ricardo. O divórcio, enfim, se concretizou.

A notícia surpreendeu, sem sombra de dúvidas. Afinal, nem mesmo os piores momentos pelos quais o time passou sob a liderança de Zé foram capazes de abalar a confiança da diretoria em seu trabalho.

No currículo, sua passagem deixou um retrospecto desfavorável: eliminação na Libertadores; derrota para o Santos – que quase custou a classificação na Copa do Brasil; e uma série de resultados negativos que distanciaram o time liderança no Nacional.

Porém, a derrota para o Vitória em casa, dentro da Ilha do Urubu, tornou a situação insustentável na Gávea.

Como todo início, puro romance

O relacionamento parecia um sonho no início.

Zé assumiu o time ainda no início de 2016, após a saída de Muricy Ramalho. Com uma equipe ainda em construção, o treinador guiou sua reestruturação e aproveitou os novos reforços da melhor maneira possível. No final, por pouco não alcançou o Campeonato Brasileiro. Um pouco instável, a equipe, ainda assim, conquistou uma posição no G4 que rendeu uma vaga na Libertadores. Era a garantia de que o ano seguinte seria ainda melhor.

O início de 2017 enganou. O Mais Querido levou o título estadual com um aproveitamento invejável, principalmente diante dos rivais locais, mas começou a se perder logo depois da primeira (e única) conquista com o treinador. Como toda relação que se desgasta, a convivência passou a ficar mais difícil com o passar do tempo.

A proteção diante dos erros cometidos por ele – que gerou consequências graves para o futebol do clube – começou a causar irritação na torcida. O favoritismo dado à algumas peças preteridas pela torcida soavam como uma traição ao clube e à torcida que tanto apoiou.

E dificilmente há relacionamentos que resistam à infidelidade.

Acabou o amor com Zé Ricardo

Passado os dias felizes do casamento, o amor ao time foi a única coisa que impediu que a torcida abrisse mão de vez do Flamengo.

O relacionamento tornou-se cansativo, forçado – e até abusivo. Com ou sem metáforas, era certo que estava fazendo mal aos torcedores e ao próprio time. Não bastasse as dificuldades da relação entre Zé Ricardo e o time, a situação azedou de vez entre o comando do clube e os torcedores.

CEOs, VPs, diretores e principalmente o presidente não escapavam das críticas – boa parte delas com razão. O ambiente no Flamengo se transformou em uma verdadeira novela dramática, onde o casal briga pela separação e os envolvidos sofrem com a insistência em algo que já havia dado o que tinha que dar. Apegar-se à parte boa do convívio serviu para sustentá-lo por mais um tempo, mas não o suficiente: Zé Ricardo deixa o Fla com um aproveitamento de 62,2%, com 47 vitórias, 25 empates e 17 derrotas. Números bons, mas que não refletiam a situação atual da equipe.

Abraço Zé Ricardo e Eduardo Bandeira de Mello

Zé Ricardo sai com a sensação de que poderia ter chegado mais longe com o que tinha em mãos. (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)

Antes mal acompanhado do que só?

O medo de ficar sozinho ou estar mal acompanhado era outro motivo para a insistência no relacionamento entre Zé e o Flamengo. Mas diante de tantos altos e baixos – mais baixos do que altos, sobretudo nos últimos meses – a demissão se tornou um mal necessário. A dança das cadeiras de técnicos, que já é de praxe no futebol brasileiro, nunca foi algo positivo. Mas, diante de tanta inércia, tentar algo novo parecia uma opção menos pior do que permanecer no erro.

Agora que a vaga de treinador está disponível na Gávea (posição assumida temporariamente por Jayme de Almeida, que já foi cotado como opção).E não são poucos os nomes sugeridos como possíveis candidatos à ela: Roger Machado (ex-Atlético Mineiro), tido como principal opção, já recusou a oferta. Jorginho, Fernando Diniz, Dunga e até o ídolo Zico estão agora em pauta.

Mas quem a torcida (aparentemente) quer é outro: Reinaldo Rueda, ex-técnico do Atlético Nacional pode ser um bom nome para assumir o lugar deixado por Zé.

Bandeira do Flamengo sendo agitada

Com a expectativa de mudanças, a esperança volta a brilhar para a torcida rubro-negra. (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)

Novos desafios aguardam o Flamengo na fase atual do time e não é certo que as coisas voltem a andar nos trilhos com muita rapidez. Porém, o acerto costuma vir depois da falha.

A diretoria do clube errou ao insistir em um relacionamento que já tinha terminado há tempos, mas ao assinar a certidão de divórcio, deu um novo passo no que pode ser uma renovação do time – e também do ambiente com a torcida. E esse é o verdadeiro patrimônio, muito maior do que meia-dúzia de jogadores protegidos ou técnicos.

No ciclo do sucesso, o fim de uns pode ser o recomeço de outros. E que seja para o Mais Querido o reinício de tudo.

Bruna Rodrigues

Bruna Rodrigues

Jornalista em formação, flamenguista de nascimento e fã de automobilismo – em especial, F1 e IndyCar (por opção). Transfiro para as palavras a emoção e a paixão que o esporte me faz sentir e, nas horas vagas, também finjo que sei jogar videogame e futebol.



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