O bad boy está de volta

O bad boy está de volta
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Jon Jones pôde voltar a sorrir com leveza após a vitória na noite de sábado (Foto: Getty Images)

Envolvido em problemas pessoais e desde janeiro de 2015 sem disputar o título de sua categoria, Jon Jones lutou de maneira consistente e reconquistou a cinta dos meio-pesados no UFC

O melhor lutador de MMA de todos os tempos é também um dos mais polêmicos. É difícil entender como Jon “Bones” Jones consegue ser tão bom e ainda se envolver em tantas confusões. Jones foi o rei dos meio-pesados do UFC até janeiro de 2015. Nesse mês, JJ venceu Daniel Cormier, mas poucos dias após a luta seria revelado que ele havia consumido cocaína. Desde então, Bones passou a fazer as manchetes não por seu desempenho, mas pelos problemas em que se envolvia.

E por isso o UFC deste sábado foi especial. Jon Jones enfrentou o mesmo Cormier, pelo título da categoria. Só que dessa vez, DC era o campeão. E a performance de JJ foi tão consistente que silenciou todas as críticas e dúvidas. No entanto, como ele mesmo afirmou, não é nenhum santo. Mas a certeza é só uma: o bad boy está de volta aos octógonos.

As polêmicas

Quando Jones foi pego consumindo cocaína, alguns acreditavam que ele não voltaria mais aos octógonos. Para outros, parecia mais uma história, dentre tantas outras, de personalidades que cometeram um erro grave e deram a volta por cima. Mas conforme prosseguiu a vida do talentoso lutador, o número de fãs desiludidos só cresceu. E não sem motivo.

O fã de artes marciais mistas viu muita coisa acontecer na vida de Bones desde então. O lutador deu entrada no rehab e saiu no dia seguinte, bateu no carro de uma mulher grávida e fugiu com uma sacola de dinheiro, desacatou uma autoridade e foi condenado, além de ter sido pego no antidoping porque consumiu viagra adulterado com anabolizantes – supostamente sem o seu conhecimento.

Não havia mais como crer em uma volta de JJ, que foi de um potencial “Ronaldo Fenômeno” a um possível “Adriano Imperador”. E a situação piorou de tal forma que todos passaram a ter medo que ele se tornasse um “goleiro Bruno”. Mas Jones é único, e nos mostrou isso novamente nessa noite de sábado.

Daniel Cormier: o campeão que merecemos

Encarada entre Anthony Johnson e Daniel Cormier no UFC 187

Anthony Johnson foi um lutador que Jones perdeu a chance de enfrentar por conta de seus problemas pessoais. A difícil tarefa caiu nas mãos de Cormier (Foto: MMA Weekly)

O adversário de JJ na noite era mesmo da luta em que ocorreu o escândalo da cocaína: Daniel Cormier, que perdeu o primeiro embate. Mas enquanto Jones se afogava em problemas pessoais, seu adversário sagrou-se campeão da divisão e fez as lutas que ele deveria ter feito. Esforçado, lutou 4 vezes nesse meio-tempo, melhorou o seu jogo e foi o campeão que merecemos (estamos mesmo com tanta bola assim?). Após 2 anos, não restava dúvidas de que Daniel era um grande campeão. Mas o nome Jon Jones ainda o assombrava.

“DC” aspirava ser o melhor de sua divisão. No entanto, como ser o melhor em uma divisão que tem o melhor lutador de todos os tempos e que, inclusive, já havia o derrotado? Daniel precisava retirar essa mancha de seu cartel. A revanche chegou a ser marcada e desmarcada diversas vezes, por conta dos problemas pessoais de Jones. Tal fato alimentou ainda mais uma das maiores rivalidades do UFC nos últimos anos. Ontem à noite, a espera de Daniel terminou, mas o resultado ficou um tanto longe do que desejava.

A luta

Jon “Bones” Jones não é considerado o melhor de todos os tempos à toa. Mas após tantas polêmicas e um longo período de inatividade, dúvidas surgiram a respeito de o quão bom ele estaria. No entanto, logo no primeiro round o desafiante tratou de silenciar todas as críticas.

Impondo ritmo intenso, o até então ex-campeão partiu para cima logo nos primeiros minutos, como há muito tempo não fazia. Daniel também não se intimidou, pois sabia que suas chances estavam na curta distância e numa luta mais “pegada”. Jones combinou golpes na cabeça, no corpo e nas pernas, enquanto DC mirou mais no rosto. Ambos também tentaram quedas, até com sucesso, mas nenhum dos dois conseguiu ficar por cima do outro. “Bones” levou a melhor nesse round.

No segundo assalto, a postura de JJ mudou. Foi como se ele tivesse feito o primeiro apenas para “marcar presença”, e então passou a cozinhar a luta. De maneira a poupar o gás, dosou melhor o ritmo e buscou aproveitar bem a enorme diferença de envergadura entre os dois. Jones impôs seu jogo característico: mão no rosto do adversário, chutes oblíquos nas pernas, golpes na barriga e um não tão intenso “bate e sai”.

O resultado foi que além de minar o gás de Cormier e ir destruindo sua base, JJ não se expunha. Mesmo assim Daniel surpreendeu e conseguiu encaixar duros socos no rosto de seu oponente. O esforçado campeão acertou os golpes mais fortes e levou o segundo round. Mas mal sabia ele que o recuo de Jones era apenas estratégico e que o desafiante apenas buscava expor uma das fraquezas do oponente.

A estratégia vencedora

Com o final do round #2, Greg Jackson, treinador de JJ, disse ao seu pupilo que era hora de explorar a fraqueza de DC. Desde antes do embate eles já sabiam que Cormier abaixava a cabeça para o seu lado direito de certa forma que a expunha a golpes. O ataque finalizador seria um só chute na cabeça de Daniel com a perna esquerda.

Jon Jones manteve a tônica no terceiro round, esperava o momento certo para nocautear. O desafiante chutaria alto apenas uma vez, e essa seria a única chance que ele precisaria. No terceiro minuto do round, acertou a canelada no rosto de Daniel, que entrou limpa e o atordoou completamente. O campeão cambaleou para trás, e Jones o perseguiu com golpes. Os dois giraram o octógono inteiro até que Cormier caiu colado à grade. A luta poderia ter parado por aí, não havia mais nada que DC poderia fazer. O campeão ainda foi golpeado várias vezes, antes que o árbitro decretasse o fim da luta.

Jon Jones nocauteia Daniel Cormier com um chute na cabeça no UFC 214

O momento decisivo da luta (Foto: UFC/Getty Images)

A (breve) redenção de Jonny Bones

Jones demonstrou vigor físico, inteligência, estratégia, técnica, foco, confiança no trabalho de seus corners e por isso voltou a ser o campeão. Nem o fã mais esperançoso poderia antecipar tamanha consistência em sua volta ao octógono. O melhor lutador de MMA de todos os tempos pareceu, inclusive, ter melhorado no tempo em que esteve fora. Intrigante, a trajetória de Jon “Bones” Jones fica mais interessante a cada capítulo.

Quando o seu braço foi levantado e o presidente Dana White colocou o cinturão em volta de sua cintura, era visível o quanto significava aquilo significa para si. Antes de atravessar a tempestade que se tornou sua vida, Jon Jones era o campeão e o melhor do mundo. Durante 2 anos e meio, viu o seu maior rival ocupar o posto que deveria ser seu e fazer as suas lutas. Perdeu patrocínios, teve que se entregar à polícia, participou de audiências e teve que se declarar culpado, admitiu o uso de viagra. Quando o cinturão foi colocado, na noite de sábado, ao redor de sua barriga, foi como se sua vida voltasse para os estado em que estava antes. O campeão ajoelhou-se e rendeu-se aos prantos.

Jon Jones chora ao ser coroado novamente campeão dos meio-pesados do UFC

Após todas as polêmicas em que se envolveu, o título dos meio-pesados passou a ter um valor diferente para Jones. (Foto: reprodução/Canal Combate)

Enquanto isso, DC estava incorfomado e confuso com o nocaute, impassivo, chegou até a empurrar o árbitro. Jones aproveitou o momento para dizer algumas palavras sobre o rival, e surpreendeu a todos novamente:

“Eu quero aproveitar esse momento para agradecer Daniel Cormier, por ser meu maior rival e motivador. DC não tem absolutamente nenhum motivo para sentir-se desapontado. Ele foi um modelo de como ser um bom campeão, um bom marido, um bom pai, colega de equipe e líder. E eu aspiro ser muito mais parecido com esse homem, porque ele é um ser humano sensacional. Infelizmente, somos oponentes, mas para além disso, ele é um verdadeiro campeão para o resto da vida dele.”

O catiço

O que mais revoltava a respeito das confusões em que Bones se envolveu é que ele é, sem dúvidas, o melhor lutador de MMA de todos os tempos. Ele poderia ter o mundo nas mãos. Aos 23 anos, se tornou o lutador mais jovem na história do UFC a conquistar um cinturão, e bateu lendas em seu auge como nenhum outro fez. Fisicamente sensacional, tecnicamente revolucionário, dono de um estilo de luta inconfundível que ninguém conseguiu imitar. E no entanto quase pôs tudo a perder naquela que deveria ser sua melhor fase na vida.

Por isso, Jones é um dos vilões de um esporte marcado por rivalidades exacerbadas. Mas é mais vilão de si mesmo. Bones declarou em sua entrevista pós-luta:

“eu não vou prometer que serei um santo. Até porque no fim das contas eu sou o catiço” – ‘wild motherfucker’, em inglês – “Mas eu posso fazer um esforço consciente para tomar decisões melhores”.

Para nós, não importa mais se ele será um “bom menino” ou não. Um ano sem JJ é como uma Copa do Mundo sem a Alemanha ou o Brasil, por exemplo. E no MMA as “Copas do Mundo” acontecem todo ano. Por isso, queremos nosso vilão, nosso bad boy, nosso catiço; queremos Jon “Bones” Jones!

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Giovanni Pastore

Giovanni Pastore

Carioca, 22 anos, estudante de publicidade. Desiludido com o futebol e seus 90 minutos de aflição, comecei a explorar outras alternativas e assim me descobri apaixonado por esportes de combate. Gosto da reflexão sobre o seu papel social e também sobre os negócios que os rodeiam. Dentre eles, o MMA é meu favorito, o qual olho com muita admiração, mas sem perder o olhar critico.
foto por: Pamella Kastrupp



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