Vergonha

Vergonha

que Cenas de guerra tomaram conta da Colina História ontem (Foto: Alexandre Loureiro/Getty Images)

Nos 90 minutos, a vergonha foi do Vasco em campo; depois, nas arquibancadas

Eu poderia resumir todas as palavras seguintes em apenas uma: vergonha. Gostaria muito que esse adjetivo traduzisse apenas o que aconteceu nos 90 minutos de jogo. De fato, já seria possível, pois vimos um Vasco extremamente apático em campo. Sem raça, sem ambição. Sem nenhuma vontade de tentar construir um resultado. Por fim, a derrota por 1×0 para o Flamengo foi um resultado justo. Mas então entraram em cena os doentes (eu me recuso a chamar essas pessoas de torcedores) que fariam a palavra vergonha adquirir um resultado muito mais intenso.

O que mais se ouviu nos últimos anos foram as reclamações dos vascaínos sobre o fato de que os clássicos cariocas não eram disputados na Colina. “Nós temos casa! ”, bradam, orgulhosos. “O Vasco tem o direito de mandar os jogos em São Januário! ”. De fato, tem. Assim como o Botafogo exerce seus mandos no Nilton Santos, o Caldeirão também possui capacidade para receber esses tipos de partidas. A única coisa que esqueceram nesse processo foi exatamente do próprio torcedor, que vem levando a história do Território Hostil muito mais a sério do que deveria.

É extremamente normal fazer uma provocação saudável – como, por exemplo, as “decorações” das ruas no entorno do estádio que foram feitas no jogo contra o Fluminense, e contra o próprio Flamengo ontem –, algo que não machuca ninguém, não fere, não agride. A casa do Vasco precisa ser usada ao seu favor. Intimidem o adversário com canto, com festa, mas nunca com desrespeito, ofensa e ataques de fúria. O futebol é um esporte de inclusão e acolhimento que JAMAIS deveria ser tomado pelo medo. Jamais.

Eurico deu uma coletiva após o triste episódio de ontem, mas escolheu culpar terceiros (foto: Paulo Fernandes/Vasco.com.br)

Não tem como um vascaíno descrever direito tudo o que aconteceu ontem sem ser acometido por um imenso sentimento de dor e chateação. Diversas bombas foram arremessadas em campo, e o que mais vimos foram pessoas tentando invadir o gramado, agredir as outras, arrasando e depredando tudo o que viam pela frente. Ver nossa casa ser devastada por quem deveria cuidar dela e valorizá-la foi algo inexplicável.

São Januário era a nossa única garantia de força e, com o episódio de ontem, é certo que perderemos nosso 12º jogador por bastante tempo. O Vasco acabará punido e o futuro no Brasileirão vai se tornar ainda mais incerto, pois, querendo ou não, seguiremos abalados. No final, não foi o Flamengo que nos derrotou ontem. Nós mesmos nos sabotamos, nos destruímos e manchamos nossa história de uma forma muito triste.

Dava sim para resumir todas essas palavras com apenas “vergonha”. Mas, além disso, é preciso dizer que os vascaínos de verdade são as pessoas mais tristes com tudo o que aconteceu. É estarrecedor ver um grupo de animais agirem de um modo tão covarde e violento por um time que dizem amar, mas que no final é o mais prejudicado. Como disse Eurico ontem (e é a primeira vez que eu me vejo obrigada a concordar com ele), “isso não é Vasco”. O Vasco que conhecemos é um Gigante, é o time do amor. Ele possui a torcida mais apaixonada e leal do Brasil, que canta o tempo inteiro, que incentiva, que continua ao lado do time mesmo nos piores momentos. Os doentes que agiram ontem não podem ser chamados de vascaínos, menos ainda de torcedores. Isso não é torcer. Isso não é Vasco.

O que nos restou da partida de ontem foi apenas um profundo sentimento de tristeza que vai demorar a passar.

Raphaela Reis

Raphaela Reis

Estudante de publicidade, 19 anos, nascida e criada no Méier, subúrbio do Rio de Janeiro. Apaixonada por futebol e pelo Vasco desde criança, viciada em ler o caderno de esportes do jornal e desafiante oficial dos tios e primos no FIFA. Infelizmente não realizou a fantasia de se tornar a nova Marta, mas hoje busca nas palavras uma forma de se manter conectada ao mundo da bola.



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