Território hostil apenas fora de campo

Território hostil apenas fora de campo

Jogadores do Flamengo reverenciam os corajosos rubro-negros presentes em São Januário (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)

São Januário acabou se mostrando território hostil para os próprios vascaínos nas arquibancadas; em campo o Flamengo dominou

Flamengo e Vasco, protagonistas do futebol carioca, já se enfrentaram mais de 370 vezes, com retrospecto favorável ao clube da Gávea. Além disso, ao longo de 2017, o Mais Querido vem desfrutando de um ano mais agradável do que para o rival da Colina, já que mesmo tendo sido eliminado ainda na fase de grupo da Libertadores, foi campeão estadual, segue nas quartas-de-final da Copa do Brasil, classificado na Sul-Americana e, até então é o 3º colocado no Campeonato Brasileiro, além de estar invicto diante dos rivais cariocas em 2017.  Apesar disso, o favoritismo não impediu os cruzmaltinos de mexerem com o rival enquanto puderam antes do confronto. Neste sábado (08), as ruas do entorno de São Januário, principalmente nas áreas de acesso à entrada dos visitantes amanheceram com cartazes contendo provocações como “87 é do Sport” e “Compraram a Lusa”, além de outros. Tentaram fazer valer a máxima de “território hostil desde 1927”, mas no fim, o território se mostrou gentil demais ao rubro negro.

A torcida do Vasco provocou mesmo antes da partida… (Foto: Edgard Maciel de Sá)

O jogo foi tenso, como já era esperado. Fez jus às críticas de que o Clássico dos Milhões tem briga demais e futebol de menos. O “feijão com arroz” foi suficiente para que o Flamengo saísse com a vitória e 3 pontos que colocam o time na vice-liderança do Campeonato Brasileiro. Mas é preciso salientar que a vitória veio com a superação de uma série de desfalques que poderiam ter prejudicado ainda mais o rubro-negro: antes mesmo do início da partida, o zagueiro Réver sofreu com os sintomas de uma gastroenterite e foi substituído pelo contestado Rafael Vaz; aos 18 minutos, Rhodolfo precisou deixar a partida após sentir a perna, e o zagueiro da base Léo Duarte entrou em seu lugar; Paolo Guerrero foi mais um sacado do time ao machucar a cabeça e foi trocado por Leandro Damião; e depois, quem saiu lesionado foi Léo Duarte, que sofreu uma entorse no tornozelo ao ser atingido por um carrinho de Luís Fabiano.

A arbitragem da partida também foi bastante questionada por ambas as torcidas. Anderson Daronco não poupou os cartões amarelos para conter os jogadores, mas nos momentos em que deveria ter aparecido para punir, não o fez. Paolo Guerrero recebeu um cartão por reclamação logo no início do jogo e por isso, fica de fora do Flamengo x Grêmio na próxima semana. Ainda no primeiro tempo, Nenê também foi punido por reclamação e Luís Fabiano foi amarelado ao cometer uma falta sobre Éverton. No entanto, quando o atacante machucou o zagueiro Léo Duarte, não houve punição. Os vascaínos ainda questionaram a não marcação de um pênalti quando em um lance, a bola encostou na mão de Éverton Ribeiro dentro da área.

O futebol deixou a desejar muito no primeiro tempo do jogo. Para a alegria do fã do esporte e principalmente do torcedor rubro-negro, ele apareceu mais na etapa final. Logo no início do segundo tempo, Guerrero, antes de sair, deixou Paulão para trás e obrigou Martín Silva a sair da zona de conforto e fazer uma defesa. Pouco depois, Yago Pikachu saiu na frente e marcou para o Vasco, mas o lance não valeu. O lance seguinte colocou o Flamengo em vantagem. Éverton Ribeiro deu a assistência para Éverton Cardoso cabecear e mandar a bola para o fundo da rede vascaína, dando a vitória ao Flamengo. O Vasco tentou alcançar o rival momentos depois com Luís Fabiano, mas o goleiro Thiago fez um bom trabalho ao fechar o gol rubro-negro, em conjunto com a defesa da equipe que mesmo desfalcada foi efetiva em segurar os contra-ataques do adversário. No final, a partida terminou com o placar simples, mas suficiente para deixar o Mais Querido numa posição confortável. Mesmo com as inúmeras provocações por parte da torcida alvinegra e das ações retrógradas da diretoria do dono da casa, o Flamengo adotou uma postura contida que se mostrou a melhor opção.

…mas os rubro-negros devolveram (Foto: Bruno Marinho/O Globo)

E quem riu primeiro, terminou na pior: o Vasco perdeu o seu principal reforço, a sua casa.

Com o apito final, o jogo tinha tudo para se tornar mais um capítulo de uma rivalidade que já dura há muito, cujas consequências não teriam nada de absurdo. Porém, não foi assim que as coisas terminaram. Revoltados, uma parte da torcida do Vasco transformou o estádio em um cenário de guerra. Começaram arremessando copos, garrafas, sapatos e outros objetos ao campo, na direção da arbitragem, da segurança e dos jogadores do Flamengo. De uma hora para a outra, a confusão que parecia de fácil controle cresceu inesperadamente. Bombas começaram a ser atiradas pelos torcedores, e a polícia revidou com bombas de efeito moral, gás de pimenta e balas de borracha. Duas policiais mulheres foram agredidas por um grupo de 6 homens, mas as oficiais conseguiram afastar os agressores.

Infelizmente, o tumulto não poupou nem quem estava de fora da briga em São Januário. Várias crianças e mulheres foram atingidas, principalmente com os efeitos do gás de pimenta, que chegou a incomodar até os jogadores do Flamengo, presos no meio do campo junto com a comissão de arbitragem e a comissão técnica, que juntamente com a pequena parcela de sua torcida, só foram liberados mais de 1 hora após o fim do jogo, sob escolta policial. Os setoristas e jornalistas que estavam presentes para a cobertura da partida precisaram se esconder nos banheiros das cabines de imprensa, local utilizado também para abrigar torcedores que tentavam se salvar do quebra-quebra, principalmente idosos. Uma das imagens divulgadas após o fim da partida mostra uma mulher, vascaína, extremamente nervosa e a chorar copiosamente mesmo já estando em segurança. Do lado de fora, o tumulto continuou e terminou da pior forma possível: três torcedores do Vasco foram baleados, um deles, atingido no tórax, não resistiu e deu entrada ao hospital já sem vida.

Ameaçada, a torcida do Flamengo assistia às cenas de selvageria no setor ao lado (Foto: André Durão/Globo Esporte)

Tido como principal responsável pela crise do Vasco e pela revolta da torcida, que já vem se acumulando há tempos, Eurico Miranda se esquivou das perguntas objetivas na coletiva após o jogo – coletiva que quase não aconteceu por causa do próprio cartola, que quis selecionar apenas 3 veículos para os quais concederia entrevista. O presidente do Vasco pediu desculpas pelas cenas de selvageria, mas jogou a culpa pelo ocorrido em “grupos políticos” (que teriam como objetivo desestabilizar ele e o clube), citou a política de torcida única como uma alternativa sugerida por ele antes do confronto e, sem demonstrar medo por uma possível punição severa, garantiu que São Januário oferecia segurança para os torcedores e profissionais que por ventura trabalhem no estádio.

O confronto colocou o Vasco em uma situação nada favorável, que agora corre sérios riscos de perder a sua casa, justamente onde vem tendo melhor aproveitamento neste Campeonato Brasileiro. O regulamento aponta, para casos como esse, punição que vai de multa à 10 partidas sem mando de campo. O ocorrido será analisado ainda durante esta semana pelo STJD, mas a tendência é que São Januário seja interditado provisoriamente.

Na noite desse sábado, o clube da Colina perdeu muito mais do que os 3 pontos. Perdeu a postura, perdeu a razão, perdeu o direito de criticar. O resultado da partida se tornou um dos menores problemas do time que há tempos sofre com uma diretoria tóxica, mas que tem sido efetiva em manipular uma parcela da torcida para se manter no poder. Se a briga entre os torcedores teve mesmo motivações políticas como alguns afirmam, não é por aí que os cruzmaltinos conseguirão mudanças tão necessárias para um clube que vive um presente que em nada reflete o passado admirável que já teve. Enquanto isso tudo acontece, o rival da Gávea desfruta de uma posição fruto de muito trabalho e profissionalismo – mesmo depois de bater muito a cabeça na parede. O maior inimigo não era o adversário rubro-negro, muito menos a imprensa, mas estava o tempo todo dentro de São Januário. O território hostil acabou se tornando um alçapão no qual a própria torcida caiu.

Bruna Rodrigues

Bruna Rodrigues

Jornalista em formação, flamenguista de nascimento e fã de automobilismo – em especial, F1 e IndyCar (por opção). Transfiro para as palavras a emoção e a paixão que o esporte me faz sentir e, nas horas vagas, também finjo que sei jogar videogame e futebol.



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