UFC 211: o MMA na sua melhor forma

UFC 211: o MMA na sua melhor forma
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O americano Stipe Miocic foi um dos grandes vencedores da noite (Foto: divulgação/UFC)

Duas disputas de cinturão, pedido de casamento, luta que terminou em “no contest”; confira o que aconteceu de melhor no UFC 211

O Brasil tinha a chance de voltar para casa com 2 cinturões na noite desse sábado: Junior “Cigano” dos Santos fazia a revanche contra Stipe Miocic, campeão dos peso-pesados, e Jéssica “Bate-estaca” Andrade enfrentava Joanna Jedrzejczyk, campeã das palhas. O primeiro decepcionou, repetindo erros anteriormente cometidos; a segunda foi atropelada, mas saiu de cabeça erguida por ter dado o sangue no octógono e ainda pediu a namorada em casamento no próprio octógono, mesmo após a derrota. Além disso, entre os destaques, o evento contou com mais uma vitória de Demian Maia, no Jiu Jitsu, Frankie “The Answer” Edgar “ensinando” MMA ao prodígio Yair Rodriguez, o show de Eddie Alvarez na luta com Dustin “The Diamond” Poirier, repleta de reviravoltas, e David Branch, campeão em 2 divisões no “extinto” WSOF, que prometia muito, mas não surpreendeu. Leia a análise da RISE Esportes sobre as lutas mais importantes de um evento que propiciou aos fãs um espetáculo completo de MMA.

Cigano fez tudo o que não deveria ter feito na revanche contra Stipe Miocic

A expectativa brasileira para o embate era muito grande: Junior “Cigano” dos Santos, que já foi campeão dos peso-pesados, enfrentava um oponente que havia vencido recentemente, e agora a luta valia a cinta. Ainda, mostou em seu último combate, contra Ben Rothwell, ter melhorado em uma das áreas em que teve problemas na sua primeira luta contra Stipe, a movimentação. Mas nada aconteceu como esperado. Antecipava-se um embate que lembrasse, ao menos um pouco, a guerra que foi o primeiro, e que Cigano, o mais experiente, evitasse alguns erros simples que cometeu. Mas o brasileiro fez o oposto do que deveria fazer.

Enquanto o americano buscou repetir as situações que deram certo no combate anterior – andar para frente e encurralar Junior na grade -, seu oponente aceitou o jogo desfavorável a si e repetiu todos os erros que cometeu. A questão é que o lutador catarinense lutava melhor quando estava no centro do octógono porque assim tinha espaço suficiente para trabalhar suas esquivas e, próximo à grade, se tornava um alvo fácil, pois ficava mais estático. E não houve um momento na luta em que ele não estivesse nessa posição desfavorável.

Stipe Miocic ter encurralado Junior Cigano na grade foi decisivo para o combate (Foto: divulgação/UFC)

O resto do combate foi história, um verdadeiro passeio do campeão. Stipe não quis correr riscos e logo tratou de encurralar o brasileiro. Seus golpes entraram desde o início, praticamente sem resposta e, antes do fim do primeiro round, Cigano era nocauteado. Não deu nem tempo de utilizar seu fôlego excepcional e sua capacidade de absorção de golpes de pouco valeu se estava o tempo todo a tomar sequências. A lona, assim, foi inevitável para o catarinense.

Com a vitória, Miocic se firma ainda mais como o rei da divisão dos pesados no UFC, “limpando” sua última derrota e, agora, aguarda com calma seu próximo desafiante. Enquanto Junior dos Santos fica numa posição estranha em que perdeu a chance do título e está há 7 combates a repetir uma situação de “perde uma, ganha uma”. Seu futuro na divisão é um tanto incerto.

Joanna Jedrzejczyk vence sua 6ª luta seguida com o cinturão das peso-palhas em jogo. Quem pode pará-la?

Outra vez, Joanna atropelou sua oponente. Jéssica “Bate-estaca” Andrade, embora tenha vendido caro a derrota, perdeu todos os 5 rounds e apanhou bastante. No entanto, é digna de aplausos a performance da brasileira, que chegou a levar perigo com seus socos – mesmo que não em todos os momentos -, e aguentou todos os rounds com a máquina de golpear que é a campeã das palhas. Ainda, Jéssica, nos últimos 2, lutou com o coração nas luvas – já sem fôlego e bastante castigada -, e no round final ensaiou uma reação.

Golpes com o intuito de controlar a distância foram essenciais na estratégia da campeã (Foto: divulgação/UFC)

Muito se falou sobre as habilidades da brasileira na trocação antes do combate. De fato, Bate-estaca acertou alguns bons e duros golpes na polonesa. Mas eles não foram suficientes para abalá-la e Joanna nunca esteve realmente em perigo. O problema é que, enquanto a campeã faz estrago com seus golpes, ela cuida para que não seja contragolpeada e ainda vai destruindo a capacidade das oponentes de atacarem de volta. A polonesa trabalha com golpes que favorecem sua envergadura e altura – normalmente superiores -, mantendo sua oponente à distância. E, quando essa distância é superada, Joanna é sempre a lutadora mais rápida, aplicando um volume muito grande de golpes certeiros, uma verdadeira blitz. Enquanto isso, a campeã trata de encaixar chutes baixos e golpes na barriga da adversária de modo a reduzir sua mobilidade e fôlego, transformando-a em um alvo mais estático. E, como se já não fosse suficiente, o gás interminável da polonesa garante que ela possa repetir essa estratégia durante a luta inteira. A única esperança das outras lutadoras da divisão era conseguir levá-la ao chão. Mas Joanna tem uma excelente defesa de quedas está sempre com mais fôlego, devido à estratégia já citada. Assim, a campeã sempre cai já se levantando, por mais contraditório que pareça.

Infelizmente, a brasileira não conseguiu evitar o jogo de Joanna Jedrzejczyk e esse combate não foi muito diferente dos anteriores da polonesa. No terceiro round, Jéssica já estava bastante castigada e, quando tentava responder aos ataques, sua oponente estava praticamente do outro lado do octógono. No entanto, Bate-estaca saiu de cabeça erguida do combate: sabia muito bem que enfrentava uma das melhores lutadoras de MMA do mundo e aguentou até o final, além de ter deixado hematomas consideráveis no rosto da campeã.

Após a luta, ainda tivemos um momento especial da brasileira no octógono: Jéssica pegou o microfone do apresentador Joe Rogan e pediu sua namorada em casamento, que aceitou o pedido, com direito a aplausos do público presente. O acontecimento lembra a conterrânea Amanda Nunes, campeã das penas, que sempre leva Nina Ansaroff, sua namorada, no corner, e faz questão de falar sobre nas entrevistas. O UFC tem se mostrado desde 2013, surpreendentemente, um lugar muito receptivo às mulheres. Inclusive, às lésbicas.

Demian Maia foi “Demian Maia” e agora está mais perto ainda do cinturão dos meio-médios

Não há muito o que falar sobre essa luta. Quem assistiu aos últimos embates do brasileiro e conhece seu estilo de jogo pôde reconhecer muitas cenas. Jorge “Gamebred” Masvidal até apresentou mais perigo que os mais recentes adversários de Demian, fazendo estrago em pé e acertando bons contragolpes nas tentativas de queda do especialista em Jiu Jitsu. Mas o brasileiro, apesar disso, conseguiu impor seu jogo no chão e faturou a vitória por decisão dividida.

O que é incrível em Demian, além do seu jogo no solo, é a sua capacidade de derrubar seus oponentes. Ele consegue transformar uma tentativa de queda aparentemente mal sucedida em uma extremamente bem sucedida. Em um primeiro momento, o oponente está defendendo muito bem a entrada do especialista em Jiu Jitsu e parece ter afastado todo o risco, mas logo Maia consegue agarrar, de maneira ímpar, um dos pés do adversário e, quando vamos ver, ele já está por cima, com uma perna enganchada e partindo para as costas do outro lutador. Assim Jorge Masvidal perdeu a luta.

Após a vitória, Maia apontou para seu “chefe”, Dana White, e foi exigir-lhe sua merecida disputa de cinturão. Depois, na entrevista no octógono, Demian revelou a resposta de Dana, que disse que a próxima vez em que ele estiver no UFC, será para disputar o cinturão.

Frankie Edgar mostra porque é um dos maiores oponentes de Aldo e vence o prodígio Yair Rodriguez sem dificuldades

A tarefa do veterano Frankie “The Answer” Edgar não era exatamente fácil: o jovem Yair Rodriguez vinha impressionando nos seus últimos combates, demonstrando bastante força, velocidade, um jogo de chão ativo e perigoso e tem 13 cm a mais que seu adversário da noite de sábado. Mas Frankie é um dos mais completos lutadores do UFC, sua experiência falou muito mais alto e ele deu uma verdadeira aula de MMA ao prodígio.

Apesar de ter imposto a luta agarrada, Frankie Edgar também foi superior na trocação (Foto: divulgação/UFC)

O atleta mais velho não queria brincadeira: após algumas trocas de golpes, nas quais o próprio Edgar foi melhor, ele resolveu não arriscar e tratou de botar o jovem para baixo. O veterano buscava o jogo seguro, estabilizava suas posições no chão para trabalhar o ground-and-pound e estava sempre um passo à frente na luta agarrada. Yair era arisco no solo, ensaiou algumas finalizações durante o combate, mas faltou-lhe técnica. O segundo round começou da mesma maneira que o primeiro e foi um verdadeiro monólogo de Frankie. Após o soar do gongo, no intervalo antes do terceiro, os médicos presentes no evento resolveram avaliar melhor um dos olhos do lutador mais jovem, que não se abria mais devido ao inchaço do rosto, por conta dos golpes enquanto estava por baixo, e decretaram que ele não poderia seguir no combate. A vitória foi dada a Edgar por nocaute técnico.

O veterano agora se posiciona muito bem na fila para disputar o cinturão dos penas, que dia 3 de junho pode mudar de mãos e que, mesmo se não mudar, ainda não vimos indícios de que o José Aldo de agora é o mesmo de antes da derrota para Conor McGregor. Frankie, depois de ter perdido 2 vezes para Aldo, agora pode ter sua chance de ouro.

O show de Eddie: apesar do No Contest, o Eddie Alvarez que queríamos está de volta!

Há sempre muita expectativa antes de todas as lutas do americano da Pensilvânia no UFC: os fãs queriam ver o Eddie Alvarez que conheciam dos famosos embates com seu rival Michael Chandler no Bellator, 2 verdadeiras guerras. Eles ainda esperavam por um combate com reviravoltas e mais reviravoltas, knockdowns para um lado, seguidos de knockdowns para outro, trocas de golpes intermináveis com Eddie e seu oponente se alternando entre bons e maus momentos. A espera finalmente terminou, após 4 lutas de Alvarez na organização, Dustin Poirier despertou o guerreiro pelo qual ansiávamos. O embate, se não terminasse em No Contest – ou seja, sem resultado -, dificilmente não seria escolhido como luta da noite.

O primeiro round foi bastante tenso, misturando momentos de estudo com momentos de ação. Dustin levou a melhor, se achou mais na luta, conectou mais golpes e os mais contundentes, principalmente no rosto do oponente e chutes baixos. O guerreiro aguentou a pressão do adversário, que ensaiava um atropelo. Mas as leis que se aplicam a Alvarez não são as mesmas que se aplicam a maioria dos lutadores, e tentar atropelá-lo é chamá-lo pra guerra. O seu momento viria.

A luta evoluiu em ritmo no segundo round. Eddie teve seu primeiro bom momento, acertou 2 fortes golpes, empurrou seu oponente à grade e tentou a queda. Em meio a isso, quase deixou o pescoço exposto, se livrou da guilhotina, tentou novamente derrubar, mas uma joelhada em seu corpo o levou a desistir. De volta ao centro do octógono, começou o show de Eddie. Dustin voltou a se encontrar no combate, e dessa vez estava determinado a fazer estrago em seu oponente. Partiu para cima e encaixou uma sequência de socos que atordoou seu adversário e o deixou em apuros. E não foi apenas uma sequência, foram várias, que culminaram, surpreendentemente, no melhor momento de Alvarez na luta. Mesmo sob fogo constante e recorrendo à grade várias vezes para se manter em pé, o ex-campeão do Bellator seguia tentando contragolpes até que começou a encaixá-los e virou completamente a luta. Logo, quem estava em apuros e a sofrer com as sequências do oponente era Porier. Em meio a isso, Eddie golpeou algumas vezes e buscou a queda. A situação terminou com os dois abraçados na grade e Dustin sofreu 2 joelhadas no rosto, uma legal e a outra enquanto este estava com 4 apoios no chão. Ele caiu nocauteado, e foram dados 5 minutos para ele se recuperar. No entanto, não teve jeito, e não foi por falta de vontade: seu rosto denotava sua condição e o quanto havia sentido o golpe. A luta foi, então, anulada.

Apesar do golpe “sujo”, não se pode culpar Alvarez, que ainda não tinha tido tempo de se recuperar do dano recebido. No calor do momento, é algo que pode acontecer numa luta. O que fica do combate é o momento de confraternização entre os 2, ao serem entrevistados no octógono, e o fato de que o Eddie Alvarez de antigamente voltou e está pronto para dar mais shows.

Momento de confraternização entre Porier e Alvarez, mesmo após o golpe ilegal (Foto: divulgação/UFC)

Campeão em duas categorias do WSOF, David Branch vence, mas não surpreende em estreia

Em combate morno, o veterano que vinha de 10 vitórias consecutivas no World Series Of Fighting pouco fez em sua primeira luta no UFC. Lutou apenas o suficiente para garantir a vitória por decisão dividida. Seu oponente, o polonês Krzysztof Jokto, também não lhe apresentou muita adversidade. Na luta em pé, Jotko era melhor, onde tinha boas chances. Mas aceitava com certa facilidade o jogo agarrado e pouco efetivo de Branch, que recorria constantemente a tentativas de queda e clinches na grade. David não foi o lutador que mais apresentou perigo no combate, no entanto, foi dominante de uma maneira geral, e mesmo que levasse a pior na trocação, foram poucos os momentos que o oponente teve para trabalhá-la. Assim, o veterano terminou com a vitória por decisão unânime.

A credibilidade do “extinto” WSOF voltará a ser testada em junho, no UFC 212, quando Marlon Moraes, campeão dos galos da extinta organização, enfrenta Raphael Assunção, e em julho, na final do The Ultimate Fighter 25, no embate entre Justin Gaethje, campeão dos leves no World Series, e Michael Johnson.

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Giovanni Pastore

Giovanni Pastore

Carioca, 22 anos, estudante de publicidade. Desiludido com o futebol e seus 90 minutos de aflição, comecei a explorar outras alternativas e assim me descobri apaixonado por esportes de combate. Gosto da reflexão sobre o seu papel social e também sobre os negócios que os rodeiam. Dentre eles, o MMA é meu favorito, o qual olho com muita admiração, mas sem perder o olhar critico.
foto por: Pamella Kastrupp



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