Esporte de rico? Tênis Solidário e cidadania no subúrbio do Rio

Esporte de rico? Tênis Solidário e cidadania no subúrbio do Rio

Alunos do projeto (Foto: Luan Scanferla)

Projeto social de tênis leva cidadania aos jovens do bairro de Pilares, subúrbio do Rio

Há seis anos, o barulho habitual da movimentação dos trens do ramal Belford Roxo e dos carros que passam pelo viaduto Cristóvão Colombo, em Pilares, Zona Norte do Rio de Janeiro, ganharam a companhia de sons até então incomuns no subúrbio da cidade.

Desde 2011, os moradores do bairro se acostumaram a ouvir também o ranger dos tênis e o som emitido pelo encontro entre bolinhas e raquetes na quadra Brasil Novo. A quadra de futsal adaptada abriga o Projeto Social Tênis Solidário. A iniciativa surgiu com o professor de educação física Artur Ricardo, 46 anos, que, percebendo a falta de áreas de esporte e lazer no local, decidiu fazer um projeto social no bairro onde mora.

O projeto, que hoje conta com cerca de 40 crianças, é totalmente gratuito e oferece, além das aulas e do material para a prática do esporte, serviços de atendimento médico e odontológico realizado por voluntários uma vez por ano. A maioria dos alunos mora no conjunto habitacional que fica ao lado da quadra e, para seguir no projeto, precisam estar matriculados em escola pública e manter um bom desempenho escolar durante o ano letivo. No mesmo local, em outro horário, funciona também uma escolinha popular de tênis, voltada para crianças que estudam em colégios particulares e adultos, com mensalidades no valor de 80 reais, totalmente revertido para o desenvolvimento do projeto.

Transformação social

João Gabriel, o treinador (Foto: Igor Oliveira Simões)

Passados seis anos desde seu início, a iniciativa já gera resultados. O menino prodígio Cauã da Silva, 11 anos, hoje treina também no Fluminense Football Club e espera em breve ir para a Alemanha, onde terá a oportunidade de conciliar os estudos com a busca pela profissionalização no esporte. Seu treinador, João Gabriel Oliveira, 18 anos, é aluno do projeto desde os 12 e hoje trabalha como voluntário. Nascido em Pilares e amante do tênis, pretende se formar em educação física e ressalta a importância do projeto no seu desenvolvimento pessoal:

“Eu me identifiquei muito forte com o tênis. Eu não saía muito de casa antes do projeto, não tinha afinidade com ninguém, ninguém me conhecia. A iniciativa do projeto mudou minha vida.”

Financiado apenas por patrocinadores, sem qualquer ajuda governamental, o tênis teve inicialmente dificuldades de se consolidar na região, por se tratar de um esporte elitizado e pouco conhecido, fato que gerava desconfiança entre os moradores sobre a viabilidade do projeto. Com o passar do tempo, a modalidade despertou a curiosidade das crianças e a simpatia dos pais, cumprindo seu objetivo de tentar transformar a realidade local.

Democratização do esporte

Artur Ricardo, o idealizador do projeto (Foto: Igor Oliveira Simões).

Na tentativa de quebrar o estigma de esporte voltado para a elite, Artur lançou recentemente o projeto “Tênis É 100”, em que se propõe a levar o tênis a cem diferentes espaços, como escolas, escolas de samba e universidades durante os próximos quatro anos. Após um dia de atividades no local, ele deixa um kit, contendo cinquenta bolas, uma rede, cinco raquetes, um manual e vídeos do projeto para a capacitação do professor e abre as portas da quadra Brasil Novo para possíveis intercâmbios com os lugares visitados. A ação é definida pelo professor como uma semente plantada para incentivar o surgimento de novos projetos que permitam a popularização da prática do tênis.

Mesmo recebendo propostas para dar aulas em clubes, Artur optou por seguir à frente do Tênis Solidário. Segundo ele, embora deixe de ganhar dinheiro, a dedicação ao projeto lhe traz qualidade de vida e a sensação de estar ajudando o bairro onde mora compensa o esforço.

“É um prazer, porque aqui a gente forma o cidadão. Se ele vai ser atleta é outra história. Vai ter oportunidade, depende dele também, mas a gente forma o cidadão”

Apesar disso, a rotina de se dedicar simultaneamente ao projeto e trabalhar em outros empregos para se sustentar é cansativa e ele pretende passar o bastão para alguém com novas ideias a partir de 2021, quando o Tênis Solidário completará dez anos de existência. A despedida será feita em uma grande festa de lançamento e distribuição para a comunidade de um livro contando a trajetória do projeto que modificou o cotidiano das crianças de Pilares.

Formar cidadãos: o principal objetivo do projeto (Foto: Luan Scanferla)


 

Luan Scanferla

Estudante de jornalismo pela UFF, desde berço aficionado por futebol. Com o passar dos anos e o amadurecimento, me transformei em um apaixonado por ESPORTE. Sempre soube que em meu ofício o esporte deveria estar presente, mesmo que não como “ator”. Gosto de discussões acaloradas sobre o assunto, mas sempre com bom humor e trocadilhos em demasia.

Igor Oliveira Simões

Igor Oliveira Simões

Aspirante a jornalista, escreve por prazer e necessidade. Apaixonado por esportes, gente e boas histórias. Observador 24 horas por dia e cronista nas horas vagas, alterna-se entre copos de café e cerveja, é otimista por natureza, realista por experiência e acredita no esporte para além do entretenimento, como possível ferramenta de transformação social.



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2 comments

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  1. Leandro Dias
    Leandro Dias 2 maio, 2017, 18:11

    Ótimo projeto, que beneficia o desenvolvimento pessoal desses garotos. Parabéns!

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    • RISE Esportes
      RISE Esportes 16 junho, 2017, 05:12

      Realmente, precisamos de mais projetos como esse.
      A equipe RISE Esportes agradece o comentário, Leandro!

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