A gradual evolução de Kelvin Gastellum

A gradual evolução de Kelvin Gastellum

(Foto: Jason Silva/USA TODAY Sports)

Americano de 25 anos brilha no UFC Fortaleza frente a Vitor Belfort, que já flerta com a aposentadoria

Havia um bom motivo para duvidar do americano Kelvin Gastellum neste fim de semana: seus combates, no geral, nunca foram muito reconhecidos. Kelvin apresentava bastante dificuldade em superar seus oponentes por margens consideráveis, não era tecnicamente muito superior em nenhuma área, nenhuma disciplina no MMA, nem trocação, nem luta agarrada, fosse em pé ou deitada. Mas havia 3 fatores que sempre impressionaram no jovem lutador de 25 anos: a pressão que aplicava a seus oponentes, andando sempre para frente; o gás para manter o ritmo pelos 5 rounds, onde quer que a ação acontecesse – como fez na luta contra Neil Magny; e o seu preparo psicológico para as mais variadas adversidades, mantendo a confiança mesmo quando passava por momentos difíceis durante o combate.

Mas a partir de sua luta contra Johnny Hendricks, um novo Gastellum começou a surgir: um que se mostrava claramente superior a seus oponentes. Kelvin se manteve superior durante toda a luta, causando grande prejuízo em Hendricks através da trocação e evitando o exímio wrestler de trabalhar sua arte marcial mais desenvolvida. Depois, enfrentou Tim Kennedy, que no início do primeiro round começou a impor seu wrestling, mas que foi inefetivo e terminou o round em apuros, por conta dos golpes desferidos por Gastellum. Kennedy sobreviveu ao segundo round apenas para se ver nocauteado no terceiro. E na sua luta contra Vitor Belfort, foi o lutador superior durante todo o combate, na área em que Belfort era especialista, a trocação, e no momento da luta em que Belfort sempre esteve melhor, o início, quando fôlego para o brasileiro ainda não é um problema e Vitor pode ser o mais explosivo possível. Entrar no jogo do seu oponente, sendo esse oponente uma lenda do MMA, um dos maiores nocauteadores do UFC, e sair de lá vencedor sendo a todo momento superior é para poucos, principalmente se este poderia com tranquilamente procurar a luta “mais fácil”, através do anti-jogo, de seu wrestling, cansar seu adversário antes de buscar o nocaute ou a finalização.

A luta contra Vitor é a que mais mostra o potencial de Gastellum porque ficou claro que ele pode ser mais que um lutador mediano em todas as áreas, apenas com o psicológico acima da média, para ser um lutador com isso mais uma especialidade, o muay thai muito bem ensinado por seu mestre Raphael Cordeiro. Porque Kelvin Gastellum, ao se tornar especialista em muay thai, ter ele como força, passa uma preocupação a mais ao seu adversário que, se for apenas mediano na trocação, deverá procurar outra área em que sua desvantagem seja menor. Dessa forma, além de superar seus adversários na trocação com mais facilidade, o americano pode abrir brechas para trabalhar sua luta agarrada por ela ser “menos esperada” — por conta de não ser sua força — e por ela em tese apresentar “menos risco”.

Belfort não estava mal fisicamente, mas já não é o mesmo de antigamente

O Vitor Belfort de antigamente, no UFC 15, na época em que não tinha “nenhuma fraqueza conhecida”. Créditos: WME/IMG

Belfort, por outro lado, apesar do resultado ruim, não estava na sua pior noite. Estava mais veloz e perigoso desde que voltou da suspensão pelo uso indevido de TRT (tratamento de reposição de testosterona), quando seu rendimento físico começou a cair, é a esquiva do lutador mais jovem que merece todos os méritos por ter evitado quase todos os golpes do brasileiro. Não tivemos de fato o melhor Vitor, 100% igual ao de sua juventude, porque a idade inevitavelmente cobra seu preço, mas tivemos um Vitor que ainda é um desafio para os lutadores medianos de sua categoria. No entanto, a verdade é que o “Fenômeno” não pode mais confiar nas suas habilidades na trocação como o fazia antes. As suas 4 derrotas após o TRT ter sido banido provam isso. O que ele poderia ter feito a seu favor era trabalhar seu jiu jitsu, há muito tempo esquecido, para ter uma “arma” a mais. Mesmo assim, com 4 derrotas por nocaute nas suas útimas 5 lutas, é difícil continuar sua carreira, especialmente após 20 anos de octógono.

O que podemos esperar do futuro de ambos?

Kelvin Gastellum, apesar de suas 3 vitórias mais notórias e recentes terem sido em cima de lutadores em momentos ruins de suas carreiras, vai mostrando que pode se tornar um lutador ótimo, uma força a ser reconhecida no UFC, que está preparado para um desafio maior: uma corrida ao cinturão dos meio-médios ou dos médios. E ele tem apenas 25 anos. Já Vitor, está falando em se aposentar no próximo evento do Ultimate no Rio de Janeiro, e é difícil encontrar contra-argumentos. Dói para o fã, nunca vamos esquecer o faixa preta de jiu jitsu que aos 19 anos largou tudo, mudou-se para os Estados Unidos para sagrar-se campeão do torneio dos peso-pesados, em 1997, que enfrentou de igual pra igual lendas como Randy Couture, Chuck Lidell, Anderson Silva, Tito Ortiz e que por muito pouco não levou o braço de Jon Jones “para casa”. Sentiremos muita falta de Vitor “The Phenom” Belfort.

Giovanni Pastore

Giovanni Pastore

Carioca, 22 anos, estudante de publicidade. Desiludido com o futebol e seus 90 minutos de aflição, comecei a explorar outras alternativas e assim me descobri apaixonado por esportes de combate. Gosto da reflexão sobre o seu papel social e também sobre os negócios que os rodeiam. Dentre eles, o MMA é meu favorito, o qual olho com muita admiração, mas sem perder o olhar critico. foto por: Pamella Kastrupp



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